Conto Querida Dianna, de Ana de Oliveira.

Querida Dianna,

Venho recebendo vários convites por sua causa. Todos eles feitos por pessoas que não possuem mais nada para fazer da vida, e querem atualizar outras pessoas que também não cuidam de seus afazeres. Tudo porque eu passei um bom tempo dividindo o ar com você naquele mausoléu. Tudo isso porque se importam muito com a sua vida, que parou de atualizar-se nas bocas curiosas da cidade – e outras tantas fora dela.

Não sei como me descobriram, já que você sempre foi tão reservada. Mas, sendo assim, não perderam tempo em importunar a pessoa que esteve, por tanto tempo ao seu lado – da grande autora Dianna Leal que de repente sumiu da lente da mídia.

E é óbvio, porventura, que recusei cada um deles. Vi as sobrancelhas dos caras de pau se unirem em interrogação.

“Mas você não é a garota da Dianna?” perguntou-me um deles, depois daquele típico silêncio desconfortável, e de se remexer na cadeira umas mil vezes à procura de uma razão, no mínimo, plausível. Havia ausência de vontade de promover meu nome em cima do seu, coisa que parecia impossível de compreender. Eu não era então uma aproveitadora? Era apenas uma garota que passou tempo demais ao seu lado, e que agora não sabe agarrar as oportunidades de abrir o bico e ser comentada por todos?

Eu não era, nem sou, nada disso. Sou a mesma pessoa que você conheceu, que apareceu na sua grande casa numa terça-feira de Setembro. Tio Jacques estava preocupado, suas mãos passeando nervosamente nos ralos cabelos embranquecidos – talvez pelo tempo, ou pela preocupação que andou acompanhando-o demais. Ele me contou, com significativos detalhes, sobre sua vida de porre.

Você sabe que boas coisas não saíram da boca dele, por mais que o homem estivesse preocupado na escolha das palavras. Tio Jacques ainda tinha o mesmo pensamento do tal jornalista, de que eu era uma aproveitadora, e que iria divulgar todos os pormenores sobre você – aqueles que ainda não foram para o trombone.

Senti que era uma luta interna, e que no fundo do fundo ele lutava para dar ouvidos ao anjinho pousado em seu ombro direito, que lhe dizia para confiar em mim. Que assegurava a ele, que eu era a melhor pessoa para apadrinhar você, e tentar de todas as formas tirar-lhe da bebedeira. Ou era eu, uma pessoa que ele supostamente conhecia, ou um estranho que tinha 50% a mais de chances de ser um cretino.

 E meu distante parentesco com ele não ajudava. Era meu tio, mas estava longe de ser presente, ou de saber as coisas básicas da minha vida. Tanto é que ele nem estava considerando o importante fato de que eu estava um pouco fragilizada, por causa do meu término com o Ivan, e a demissão de onde eu trabalhava. Tudo bem que eu não havia chegado no mesmo ponto que você, e que estava pelo menos a dois passos à frente só por estar sóbria, longe da devassidão. Contudo, ainda tinha aqueles pontos no meu coração que não podiam ser tocados. Aqueles assuntos, aquelas perguntas. E o medo de estar à beira de uma reação trágica em cadeia.

Mas, ignorando tudo isso, e pensando apenas em você, ele começou a confiar. Com muito custo. O ato que selou seu ato de bravura, diante do enorme medo de fazer uma besteira, foi a mão dele apertando a minha. Estávamos fazendo um trato, o qual Tio Jacques esperava não se arrepender, e não ver você sofrer caso a pior hipótese se concretizasse.

Ele sorriu, e me guiou onde você costumava estar naquele horário. No escritório, gastando as primeiras horas do dia se convencendo de que o melhor café da manhã seria sua cigarrilha mentolada. Aquele cheiro impregnado em cada canto do vasto cômodo, fazendo parte dele. Mesmo quando você não estava lá, torturando seus pulmões.

Tio Jacques estranhou sua ausência parcial naquele dia. Parcial porque o cheiro continuava ali, como se esperasse seu certeiro retorno. Então começamos a lhe procurar pelo resto dos cômodos, o que era uma tarefa chata, visto que tudo naquela casa era exagerado. O espaço em demasia sempre me fez sentir perdida e largada, mesmo quando era preenchido pela sua presença.

Achamos você no jardim. Mais tarde entendi porque aquela situação era incomum. Você nunca pareceu ligar para o jardim dos fundos. Meu tio me disse que você sempre pensou que aquele era um lugar que servia muito bem como depósito de garrafas vazias, e de qualquer lixo vindo de uma de suas algazarras noturnas na mansão.

Eu olhei para você, e de repente minha bagagem de problemas sentimentais parecia mais leve. Porque a sua era muito mais pesada, e difícil de aguentar. Era exatamente isso que seu ar denso e triste me disse quando lhe encontramos. Mesmo sabendo mais do que o suficiente, e mesmo sabendo do quão é ruim perder alguém, não entendi seu peso todo. Por que era tão pesado? Nem ao menos era uma morte. Você nem era viúva!

Minha mania de possuir amor próprio e desejo de superação neblinava qualquer razão para a existência de sua interminável amargura. Por que que alguém precisa estar tão triste por outra pessoa que sequer se importa? Por que você merecia sofrer e se afundar na maior podridão? Eu não sabia exatamente o que motivou o rompimento com a sua amada, mas não conseguia imaginar nenhuma situação sentimentalmente hedionda que explicasse sua queda e suas feridas latentes.

E mesmo quando eu soube, a compreensão não chegou até mim. Você supostamente havia feito tudo tão certo, e ela, errado. Você não era nenhum demônio, nenhum tipo de abominação. Ela certamente também não. Mas ela era um ser humano, que, como todos, errou. Errou feio, mas jamais mereceu que suas lágrimas caíssem por conta dela.

Como eu poderia entender a extensão do amor que você fazia questão de nutrir?

 Como poderia ser explicado para mim que era possível alguém ter tão pouco, ou tão nada, de amor próprio?

Como poderia ser possível amar alguém que lhe chicoteou tanto?

Era muito difícil encontrar respostas satisfatórias. Nenhuma palavra jamais expressou o que você sentia. Todos os vocábulos, de todas as línguas que você tanto domina, não me diziam nem um pouco do que havia de tão sensato em seus atos contra a própria sanidade.

Em um dado momento, dei minha busca por encerrada. Os juízos que eu tentava encontrar no seu ar masoquista e flagelado não importavam mais. Eu apenas queria ajudar-lhe. Queria ser sua muleta, já que visivelmente você mancava. Foi a partir desse ponto que começamos a aniquilar nossos demônios. Alguém muito esperto me disse que é preciso saber que nem tudo está sujeito à nossa compreensão. As razões distorcidas carregadas por você eram a prova dessa sentença. Eu estava lá para ajudar você, e não para lhe dizer o quanto de besteira tinha em suas ações e pensamentos. Até porque isso não ajudava em nada.

Ainda bem que o Tio Jacques nunca me perguntou sobre quando foi que você passou a depender tanto de mim. Nem eu saberia responder. Mas sei que não foi do dia pra noite, porque você é gradativa. Até mesmo sua queda, no enorme abismo que se enfiou por tanto tempo, não foi de repente. Sei que, em um determinado dia, você sentiu minha falta. E quando isso aconteceu, pareceu que outro abismo se abriu na sua frente, quase convincente demais para que você resistisse ao convite.

E eu também senti sua falta. De cuidar de você, estar sempre brigando com seus hábitos que volta e meia imploravam para um retorno em sua rotina.

Mas era preciso ser sensata, e diferente de você, meu amor próprio existiu. Precisou existir, e dizer-me que eu não merecia ser comparada a todo tempo com seu antigo amor, ou ser ofuscada por ela.

Estava na cara que o que começamos não se aproximava em nada de uma bela amizade, e o que quer que fosse aquilo que tivemos não precisava de suas dúvidas; de sua falta de confiança; ou então da mínima comparação que você insistia em fazer. Merecia muito mais que isso. Eu sei que você não estava inteira, nem eu estava – e nunca exigi que estivesse. Mas o pouco que eu queria era simplesmente ocupar o devido espaço em seu coração. Era pouquinho. Não era exagero, ou abuso. Queria que reconhecesse, tentando espantar o medo, de que estava tão apaixonada e entregue quanto eu. Ambas sofremos com o amor, somos diferentes, mas de nenhuma forma consegui enxergar da sua parte tentativas de fazer durar.

Dianna, provavelmente sei da força que as minhas palavras chegam até você. Sei que o que estou fazendo não é nada saudável; não é como se eu estivesse apenas escrevendo para perguntar como você está. Até porque é uma resposta ao encontro imprevisível que nossos olhares tiveram alguns dias atrás.

Não sei porque parece que você é uma criança que precisa de explicações quanto à origem das coisas. Mas talvez se soubesse minha versão do que vivemos, entenderia o que eu fiz. Entenderia que houve um ponto em que precisei cuidar de mim mesma, para evitar de encontrar o abismo novamente. Sei que dei todos os detalhes, e que há algumas perguntas aí na sua cabecinha, mas isso é tudo que você precisa saber.

Eu precisava de alguém que estivesse disposto, entenda. Não dá para sustentar os dois lados da corda, quando eu mal consigo segurar um. Um relacionamento é uma troca, e, se não há nada vindo de sua parte, sinto que tudo é em vão. E não queria sofrer por alguém em vão. Não queria que fosse apenas porque eu te amo. Meus sentimentos não bastaram mais. Eu precisava mais do que isso para suportar todas as dificuldades que eventualmente encontraríamos como casal.

 Não cometa um erro. Não mais um. Entregue-se para qual for a pessoa que tenha roubado seu coração, e doe aquela metade que eu nunca conheci, e que você sempre guardou, porque achou que não era preciso ser mostrada. É aquela parte que eu procurei, que tanto ansiei. Mas que nunca encontrei.

Não tenha medo. Tenha defesa. Defesa contra quem ousar quebrar seu coração. Tenha ciência de que estas pessoas, que quebram corações, não merecem nem um segundo do seu tempo. Entenderei se eu for uma delas. Errei, também. E não quero saber quem errou mais, ou menos, porque no final das contas nem importa. Erro é erro. Errar é tão humano quanto nós duas.

Apenas tenha consciência de que lhe desejo o melhor, e não importa se você me quer ao seu lado, ou não, porque acho que já acostumei a lhe amar de longe. Por mim, o que você achar melhor é o melhor.

E estou fazendo mais uma vez. Sufocando meu amor próprio, colocando suas necessidades acima das minhas. Mas é isso o que o amor faz, ou tenta fazer. Eu não sei.

Talvez eu queira uma resposta. Saber que a bebida continua longe de você, e que meu tio lhe arranjou um padrinho, ou madrinha, melhor para assegurar sua sobriedade e bem-estar. Mas por favor, não me responda se a resposta não for o que eu quero ler. Minhas noites não costumam ser lá essas coisas, e às vezes tenho muita dificuldade para dormir.

Espero que esteja bem. Muito bem.

 

Sincera nas muitas palavras escritas, Lívia.

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