Eu vou chamar Iansã e Ogum e Oxalá [ou tudo aquilo que não importa e que deveria importar], conto de Douglas Rosa

Quinta-feira, 13h37

                       Estou caindo (…)

Acordo com a límpida sensação de estar no porão de algum lugar distinto da minha casa. Não identifico se as paredes do espaço são amarelas ou laranjas, se a decoração é mais um daqueles clichês horrorosos dos imóveis da burguesia, mas a última lembrança que tenho é que cai, despenquei, morri. Tudo aqui tem cheiro de incenso de hortelã; não, não sei se é hortelã ou menta, o que importa? Eu saberia dizer exatamente o cheiro do incenso se o odor do meu corpo não estivesse mais forte do que todos os outros odores presentes aqui, sinto-me despenado, como se a alma tivesse sido raspada. Será que eu levanto? Não, não, é errado. Tenho que ficar aqui, tenho certeza de que não é sequestro, ai! Sou filho de doméstica, meu pai era pedreiro me diga, me diga, me diga: quem sequestraria o infrutuoso? Paro de falar sozinho e escuto uma música ao longe, alguém está ouvindo Nina Simone, a música parece distante, não identifico a letra, mas parece real, mais real do que eu agora e aqui. Espera, espera, espera! A única pessoa no mundo que escutaria Nina Simone, não importando se é dia ou noite ou madrugada é Maurício, mas quem é Maurício? Não sei se astrologia é mais uma das formas frívolas de dar detalhamento para a dor que não se detalha, mas Maurício é o cara do parque casado, que se descasou, que se isolou e… eu o conheci. Sabe a Avenida dos Pinheiros paralela com a Rua Lima e Silva? Entre elas tem um parque inútil, desses que a Prefeitura não dá conta, que a população ignora e que os mendigos, ah, os mendigos, eles são os únicos beneficiados: afinal, ganham lar. Ganham área pra viver. Eu me perco entre explicações, mas não se iluda é o cheiro do incenso de hortelã ou de menta – eles são culpados pela minha confusão mental de quem nada explica e nada esclarece. Ou deve ser meu odor de cachaça barata e cigarro caro? Não importa. Maurício, retomando ao que concerne ao âmbito astrológico, é ariano com ascendente em Leão, mas tem a Lua em Touro. Todos os dias pela manhã, quando caminho em direção a pequena agência de publicidade a qual sou contratado, tenho que passar pelo parque, os mendigos já me conhecem, tentaram me assaltar uma ou duas vezes dentro de um ano, mas agora já me conhecem; compro pão na padaria, quando não estou atrasado, e deixo com a mendigada do parque e…

Não importa. Fazendo confusão mental estou eu novamente.

Há um ano o parque começou a mudar, a Prefeitura começou a limpar a área e meus amigos mendigos foram removidos de lá, sinto até falta, acredita? Nessa rápida ação da narrativa Maurício aparece. A Prefeitura contratou uma empresa terceirizada para limpar o parque, trouxe homens para instalar bancos e uma estátua que agora-esqueci-o-nome e, de modo óbvio, deixou para uma empresa de engenharia elétrica, a qual Maurício fazia parte, o trabalho de iluminar o ex-lar mendigo (ou vulgo parque).

Se antes eu tinha a companhia daqueles homens e mulheres que dormiam em caixas de papelão; agora, de segunda a sexta, quando passo pelo parque para me dirigir ao trabalho, encontro muita gente trabalhando, reformando, reconstruindo o local. O Maurício era um deles.

Não vou contar o resto porque o cheiro desse incenso de hortelã ou menta (não sei, mas não importa!) está me deixando tonto; Nina Simone aparece cada vez mais próxima, será que alguém aumentou a música? Não importa. Só sei que não vou e não quero contar como ele me deu o primeiro Oi e também não contarei como eu, após 1.256 Ois dados pelo Maurício, pensei e repensei e fui bater papo com ele, assim, com Coca-Cola na mão mesmo, olhos dissimulados e oblíquos (alô, Machado!) e cheio de vida, afinal, tenho em mim todos os sonhos do mundo, quem não? (alô, F. Pessoa!).

Não sei se ele gostou do papo, mas eu ofereci Coca-Cola, fui educado e gentil? Não importa. Ele disse não e sorriu, eu gostava do jeito dele, tinha algo de sujo mas limpo, tinha algo de oculto mas visível, ele parecia todo paradoxal e ao contrário, como se soubesse que minha mente já é confusa e que confundi-la ainda mais era uma estratégia provida de bom senso, afinal, quem precisa de alguém com a mente ordenada, não é?

Tu não está ouvindo essa Nina Simone? Eu a ouço cada vez mais próxima, ela parece estar cantando aqui dentro desse porão que não sei se é porão, mas é parecido. Não importa. Só sei que Maurício me disse uma vez que ouvia uma rádio que toca músicas das décadas de 50, 60, 70 e 80 e eu disse que ele tinha bom gosto, apesar de possuir conhecimento restrito sobre a produção musical neste período. Não importa a música, importa é que nosso diálogo virou rotina, todo dia, eu passava na padaria na esquina de casa, comprava Coca-Cola, pegava o ônibus, descia na Avenida dos Pinheiros e passava pelo parque e o Maurício sempre estava pronto, parecia que ele ia se casar, ele me esperava, ele adorava me ver, ai! Eu não sei, não importa. Um dia ele me perguntou por qual motivo eu tomo tanta Coca-Cola e eu sorri e disse que era para acordar, ele não ficou convencido e perguntou de novo e eu disse que não sabia. Ele riu. De um modo paradoxal – que eu já expliquei, inclusive.

Três meses depois ele me disse que estava separado e eu não queria saber os motivos, mas fiquei triste por ele. No outro dia, antes de chegar à agência, passei pelo parque e dei uma Coca-Cola para ele e ele sorriu com o tradicional-modo-paradoxal. Não importa. Eu gostei.

Duas semanas depois ele me perguntou que horas eu saía da agência e eu disse que: saio ás 13 horas. Ele nem me deixou terminar e disse que poderia pedir dispensa pro chefe e eu falei algo em francês, ele disse: como é? E eu sorri e re-disse: Pode ser. Não importa.

Saímos e ele tinha um Ford Ka 2006, e eu que não entendia de carros fiquei feliz por não precisar pegar ônibus, eu odiava todas aquelas velhas idosas animadas que saiam de manhã enquanto eu tomava Coca-Cola para acordar e, com isso, diminuir meu desejo secreto de matar uma delas. Contei isso ao Maurício e ele sorriu de modo paradoxal e eu pedi Coca-Cola para ele e ele insistiu que, antes da Coca-Cola, queria me mostrar alguma outra coisa. Fomos a uma Casa de Arte no Centro Histórico da cidade e eu fiquei surpreso, não sabia que Maurício era apreciador de arte moderna. A exposição tratava sobre os deuses do candomblé sob a perspectiva da proteção dos orixás e eu gostei. Uma mulher gorda e negra e linda, uma espécie de curadora da exposição, olhou para nós e disse, de modo objetivo, que nossos orixás eram Iansã, Ogum e Oxalá e eu não entendi. Não importa. Ah, sabe o que Maurício fez? Riu de modo paradoxal.  Eu esqueci a Coca-Cola até, depois que saímos da Casa de Arte, dei-me conta de que estava tremendo e disse a ele que precisava comprar uma latinha e ele sorriu daquele modo paradoxal (de novo).

Espera. A canção de Nina Simone está perto demais. Inclusive…

Inclusive essa canção que toca agora aqui nesse porão ou perto dele, não importa, agora eu consigo identificar a canção, ela se chama I Put a Spell on You  e, no momento, não para de tocar, e toca alto demais, quase berrando. Já disse, Nina Simone está aqui dentro. Por Ogum, essa música tocou no carro quando voltamos da exposição, sabia? Ela não tocou apenas uma vez, mas dez vezes ou mais, como agora. Eu lembro que não aguentava mais aqueles versos que diziam You hear me/I put a spell on you/ Because you’re mine. E esse cheiro de incenso de hortelã ou menta, eu não sei e não importa, está me incomodando. Droga.

Enquanto a música tocava, via que estávamos saindo da cidade e questionei Maurício, mas ele só riu de modo paradoxal. Ficamos em silêncio por trinta minutos e, quando eu já me preparava para pedir para ele tirar Nina Simone, pois eu já não aguentava mais a canção, o carro parou. Maurício, sorrindo de modo paradoxal, disse: chegamos. E eu não lembro o que fiz. Não importa.

Notei que estávamos em uma casa de construção antiga, com o pátio mal cuidado, mas a iluminação do lugar era adequada e questionei se Maurício tinha colocado todos aqueles postes e ele disse que sim. Emendado com este sim, ele disse: entra.

Não tinha medo, não importa. Minha vida era um resquício de lixo e Maurício, mesmo sorrindo de modo paradoxal, fazia-me sentir bem. A casa estava limpa, mas tinha poucos móveis e ele disse que ali era a casa dele após a separação e que não tinha muita coisa, mas tinha Coca-Cola. Acho que a música da Nina Simone me deixou tão atordoado que não lembrei que tremia por ausência de Coca-Cola. Quando ele jogou uma latinha em minha direção eu sorri e bebi aquilo em quatro minutos. Estava com sede daquilo. Em seguida, joguei a latinha no chão, limpei a boca com o rosto da mão e puxei Maurício para mim. Sim, eu beijei o cara, quem se importa? Não sei o que aconteceu, nunca me imaginei fazendo isso, nunca pensei nisso, nunca desejei isso. Mas a música de Nina Simone me… desregulou.

Como me desregula agora.

Sinto alguém entrar no porão ou nesse lugar que lembra um porão, não importa. Ainda tudo está escuro e esse cheiro de incenso de hortelã e menta está cada vez mais forte. Eu pergunto ‘quem é?”. Eu reclamo ‘abaixa esse som!’. Eu resmungo ‘me deixa sair’. Mas eu sei que esse alguém que não vejo e que está aqui não irá nada fazer. Estou caído. Estou fora de mim.

Depois de beijar Maurício, fomos para o quarto, transamos, eu, um rapaz de vinte anos e ele um homem de quase quarenta, não sei… não importa. Eu lembro que gostei e que gemia. Ele repetia Nina Simone quando me acariciava, dizendo You hear me/I put a spell on you/ Because you’re mine.

Maurício está aqui. Eu vejo o seu rosto. Eu estou deitado e vejo o seu rosto e ouço a música e… Cadê Iansã e Ogum e Oxalá nessa hora? A moça negra e gorda e linda não disse que orixás eram uma espécie de protetores? O que Maurício quer? Não importa. Ele me olho e sorri. Sorri de modo paradoxal.

Sexta-feira, 08h32

– Oi – diz Maurício.

– Oi. Quer Coca-Cola? – respondo.

– Não. Hoje será um dia de muito trabalho aqui no parque, que horas você sai?

– Saio às 13 hor…

– Quer sair comigo?

– Sim, eu topo. Não importa.

E caí.

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