Poema Da Capela Sistina, de Edson Amaro

Para Sergio Viula e Roberto Muniz Dias

A Capela Sistina contemplando,
Canto de Michelangelo o talento
E a ousadia de pintar em grande bando
A nudez, afrontando o pensamento
Da Igreja que negava o corpo quando
Novos mundos se abriam no Oceano.
Era o Renascimento italiano
Que renovava os clássicos valores.
Às luzes que trouxeram, meus louvores
Nos dez pés de martelo alagoano.

O pintor pôs num cérebro abrigado
Um Deus carnal com seu braço estendido
Mas é Adão que está sendo criado
Ou um segredo que vemos invertido?
O Criador não terá sido inventado
Pelo lóbulo crente num engano,
Por isso parecendo Deus humano?
Do artista que estudava anatomia –
Em segredo – alto aplaudo a heresia
Nos dez pés de martelo alagoano.

Sete profetas foram retratados
E do Gênesis cenas são mostradas
No lugar dos apóstolos pensados
Pelo papa das bulas consagradas.
Nem cenas do Evangelho são tratadas
No teto que parece tão profano
No próprio coração do Vaticano.
Até quatro Sibilas têm lugar:
Pitonisas pagãs a versejar
Nos dez pés de martelo alagoano?

Na Capela infiltrado o paganismo
Das Sibilas, dos fortes corpos nus,
Defender já resolve o Judaísmo,
Credo que professava o bom Jesus.
Eis a marca amarela do ostracismo
Que ao povo de Moisés provoca dano:
Ancestral do Messias soberano,
Aminadab a tem no próprio manto.
Comentar tal detalhe causa espanto
Nos dez pés de martelo alagoano!

No painel do Juízo Universal,
Que se vê na parede desse altar,
Oito homens são felizes a trocar
Beijos puros de amor terno e carnal.
Dizem que o bom pintor samaritano
Uma herege escondeu no céu mundano:
Junto à Bartolomeu, junto a Maria,
À Vittoria Colonna ocultaria
Nos dez pés de martelo alagoano.

Visões mil há nas tintas escondidas
Que, no conclave, sempre são caladas.
Se fossem as imagens debatidas,
Corroendo ordenanças antiquadas,
Tradições nunca antes discutidas
Ver-se-iam questionadas ano a ano
E, por mais que dissesse o Vaticano,
Seriam contraditórias as leituras
Dos painéis tal qual são das Escrituras
Nos dez pés de martelo alagoano.

(26 a 29 de julho de 2014)


Esse poema é um breve comentário sobre o livro Os Segredos da Capela Sistina, de Benjamin Blech & Roy Deliner, que apontam os detalhes históricos mencionados aqui.

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