Poema Antinarciso, de Fernando Cesar Borges e Silva

Amei o ódio com a força inabalável do corpo.
Agarrei, sem perdão, a mão e o sexo.
Temi e parti o tempo em momentos uníssonos, tanto feitos de amor e decepção.
Não sou mais de mim mesmo, nem nunca o fui.
É insuportável a leveza de não pertencer.
 
Se formos tão feitos de invólucros, meu recipiente simplesmente não me comporta.
Eu me transbordo.
Transbordo-me tanto que, perfurada a pele, os olhos vazam.
É impossível partir quando nunca se pode atravessar a primeira porta.
É preciso demolir a casa, arrebentar as paredes e proteger-se dos escombros.
Enormes pedaços de existência, concepção e realidade caindo mortos pelo assoalho.
Assimilação é a única segurança de que nada visto se diluiu na incoerência.
 
Almas são bulas.
Bulas repletas de contraindicações e infortúnios.
Porém é o limite da essência, é referencial.
É lá que resido, como pedra fundamental sobre a qual edifiquei minha igreja, meu [templo, meu próprio desdobramento artificialmente puro e natural.
Se um dia fui estranhamento e desalinho, hoje me venero justamente por descontruir.
Observo, trôpega e lânguida, a beleza morta da sobrevivência passada.
E por ser morta é bela. Não ser mais nada é ilusão.
 
A norma adquire a vida assim que se passa a entender os dias como sequências de [obrigações.
E, metro a metro, dia após dia, avança e engendra a tirania nos resistentes.
E a complacência nos conformistas.
A dicotomia que me trouxe por todo o caminho. Simples e plena, quase óbvia.
Foi observar o contrapeso que sancionou minha própria medida.
Sou um antinarciso, um androide dissimulado.
Era o desatino transeunte entre o ser e o nada. Hoje sou.

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