Conto Dorinha e Ritinha, de Elaine Mattos

Barra do Carmo é um município localizado no sul da Bahia. Tem cerca de três mil habitantes, sendo que setenta por cento moram em fazendas da região.

Restam cerca de novecentas pessoas morando na Cidade, que se resume a algumas ruas, uma igreja católica, o prédio da prefeitura onde funciona a Câmara dos Vereadores no segundo andar, um posto de saúde, uma igreja evangélica e uma escola.

O comércio local tem uma loja de aviamentos, dois mercadinhos, uma lanchonete, uma loja de roupas- tipo um brechó, uma loja de som de automóvel e mais nada. Esse é o balanço atual da cidade.

Os moradores não apenas se conhecem. Eles realmente se conhecem. Nome, sobrenome, filiação, estado civil, onde trabalham: a ficha completa.

Os habitantes que não trabalham no comércio são funcionários da Prefeitura, ou assumem seus postos na calçada logo depois do café da manhã e ficam lá observando quem passa, quem se visita e quem fala com quem.

E nesse cenário uma criança chamava a atenção da comunidade. Isadora ou Dorinha. Cortava o cabelo com máquina um, usava calção e camiseta. Adorava jogar bola no campinho atrás da igreja e bola de gude no canteiro da Prefeitura.

As pessoas achavam Dorinha divertida com seu jeito de menino, mas sem muito filtro para encontrar a essência, todos conviviam harmoniosamente.

Em contraponto à Dorinha, Ritinha se destacava na escola e nas brincadeiras de rua. Sempre arrumadinha com fita no cabelo e com vestidos novos que a mãe costureira fazia com gosto para a filha.

Dorinha e Ritinha brincavam juntas de pique e de pipa. No futebol Dorinha no Gol e Ritinha na torcida, sentada em volta do campinho.

Todos frequentavam a única escola que era municipal pela manhã e estadual à tarde, cumprindo assim todas as etapas do ensino fundamental e médio.

Isadora fez quinze anos e continuava a se vestir e a se sentir como um menino. Rita cada dia mais fogosa, com vestidos de alcinha de tecidos finos, quase transparentes.

Dora ficava horas espiando Ritinha descer e subir a ladeira, como uma bailarina em uma coreografia ensaiada. Não demorou muito para Dorinha se descobrir completamente apaixonada por Rita.

Uma tarde, Isadora estava assistindo a um filme americano na TV, em companhia da avó, onde um cavalheiro subia uma escada de incêndio, na lateral do prédio, com um buquê de flores em uma mão e uma caixa de bombons em embalagens vermelhas deslumbrantes, na outra e se declarava para a mocinha.

Dorinha, como todos os adolescentes do local, eram muito pobres. Ela não tinha dinheiro para flores e bombons. Não havia onde comprar flores e a vendinha do colégio vendia uns bombons amareloss e já desbotados pelo tempo de exposição no pote de plástico rosa, que ficava em cima do balcão.

Nas férias, Dorinha conseguiu um trabalho em uma fazenda, ajudando a capinar, dando comida aos animais e assim, ganhar algum dinheiro para levar seu plano adiante.

Comprou os bombons da vendinha e recortou revistas durante dias, até encontrar todos os vermelhos que precisava para enrolar os bombons, que pouco a pouco deixavam de ser amarelos.

Na casa principal da fazenda, tinha um jardim muito bem cuidado, que ficou um pouco desfalcado, depois que Isadora fez uma “colheita” de flores. Em casa, pediu a avó um laço de fita. A avó olhou incrédula para ela, pensando em como uma fita podia combinar com o visual da neta. Mas levantou, abriu uma caixa de costura, com retalhos, linhas e algumas fitas coloridas.

Dorinha pegou as flores e amarrou cuidadosamente o buque. Colocou os bombons vermelhos em uma sacolinha transparente e desceu a rua em direção à casa de Rita. Eram nove da noite e todos assistiam à novela. Alguns em pé na rua, debruçados na janela do vizinho, outros amontoados em torno de um único aparelho de TV na vizinhança.

Ritinha ouviu um barulho na varanda e ficou pálida quando viu a cena. Isadora tinha escalado a pequena varanda, com flores e chocolates em punho e se declarou para a Rita, perguntando: quer namorar comigo?

Ritinha, que nunca sonhara em ter um cavalheiro batendo a sua porta, aceitou de imediato. Depois de refeita do susto, se deu conta que estavam oficialmente namorando.

Precisou de pouco tempo para as pessoas se referirem a elas como: Rita de Dora e Dora de Rita.

Isadora aos 17 anos concluiu os estudos e foi para Ilhéus fazer Faculdade. Fez administração. Mas de quinze em quinze dias vinha visitar a namorada.

Quatro anos de Faculdade e um emprego em Ilhéu em uma firma conceituada.

Ritinha continuou em Barra do Carmo depois de terminar os estudos que a cidade oferecia e era voluntária em um centro social, alfabetizando adultos.

Alguns anos se passaram, Dora virou chefe, tinha um bom currículo, mas não queria mais ficar longe de Rita.

Pediu demissão, voltou para Barra do Carmo e conseguiu um emprego de assessora de cultura na Prefeitura. Com seus contatos colocou Ritinha para tomar conta da biblioteca municipal, que abria três horas por dia, na parte da tarde e garantia um salário mínimo. A biblioteca não era nada além de uma loja no térreo, uma ex-garagem úmida, com três estantes e alguns poucos livros, com duas mesas e quatro cadeiras de plástico manchadas. Mas tinham vasinhos de flores e toalhas de crochê feito por Rita.

Com salários fixos elas resolveram se casar. Alugaram uma casa, fizeram contrato de união estável em um cartório na cidade vizinha de Tabaú, que ficava a 15 quilômetros de distância.

Esse ano, elas comemoraram 25 anos de união, sem contar o namoro dizia Ritinha, sempre que perguntavam e ela aproveitava para contar a cena das flores e dos chocolates vermelhos.

São respeitadas na Cidade. Dorinha é madrinha de não sei quantas crianças, é uma espécie de braço direito do Prefeito, sempre tentando levar algum tipo de progresso para a região. Conseguiu a construção de uma quadra poliesportiva para as crianças e briga por elas sempre que enxerga uma nova possibilidade.

Frequentam a igreja até hoje e são felizes. Só brigam mesmo, quando Ritinha, já com quase cinquenta anos, quer sair aos domingos de shortinho curto ou vestidos de alcinha transparentes. Dorinha reclama, manda ela se vestir direito, mas Ritinha ri e desce a rua toda fogosa!

Invariavelmente se escuta em alguma roda de cadeiras na calçada:
– lá vai Rita de Dora…

– Continua bonita essa cabrita!

– E dando trabalho pra Dora (risos)

E a rotina volta à Cidade.

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