Conto Dexistido, de Gabriel Madeira

É como um dia qualquer. Você acorda, levanta, morning wood, faz malabarismos para mijar, põe a água para fazer um café e procura alguma rachadura no teto meio dormindo. Alguma mancha ou incrustação que não estivesse ali no dia anterior. A chaleira chia, o café faz cheiro bom. Som da unha raspando uma sujeira nova no apartamento alugado. A cozinha minúscula começa a impregnar-se de cafeína, o cheiro melhor que o gosto, pensa. A ramela do olho incomoda, o pijama mancha com uma gota de café que, perdida, acaba saindo do coador e encontra em cheio uma camiseta velha que foi do irmão mais velho. O dia suspenso no varal com a promessa de secar até o fim da tarde. O dia tem motivos de bolinhas vermelhas. Tem alguns momentos, logo ao acordar, pensa, que não sei bem quem sou. Fico por uns momentos pensando onde raios vim parar mesmo. São momentos de lembrar que a vida recém saiu da máquina de lavar. Uma vida limpa, poderia até dizer.

Cheiro do companheiro na cama deixa você meio confuso. Como foi mesmo que ele veio parar aqui? Lembra do corpo excitado, duro, na noite anterior. É um cheiro que prima por algo distante, como uma orquídea esquecida num jardim de uma senhora solteira. Mas esse é o tom que ele adquire depois de decair sua meia-vida, após a sensação dessa coisa que não tem nome direito, essa coisa que só de sentir o cheiro, cheiro de homem, cogito, te enche de tesão. Tudo no fundo te deixa duro. Ainda está passando o café quando vê que a passagem dos dias já não faz tanto sentido. A vida está longe de secar, talvez devesse espremer ela antes.

Veste-se: terno, gravata, maleta, de um jeito nem tão tradicional, allegro ma non troppo. Carro, tranqueiras, celular no silencioso, musiquinha no rádio, essa parte podemos pular. Pulemos? Ou será que acontece algo durante o carro, algum pensamento fugidio que faz tudo mudar hoje? Não, não vai ser agora. É preciso esperar pelo momento exato em que a metafísica nos atinja em cheio. Claro que esse momento não aparece com frequência. Não é que hoje é o dia? Mas aí eu estaria adiantando a história. Já adiantando: você chega no trabalho, bom dia, tudo bem, tudo e você, nem tanto, não te falaram? Ninguém fala nada, ninguém escapa uma palavra. Fica um vazio, espera por risadas estereotipadas de sempre, mas fica esse vazio e silêncio que chega a ser ensurdecedor.

Não consegue entender, vai pra mesa, telefone fora do gancho, algo errado, algo muito errado, pois é você não atendeu o celular, sinto muito, ligaram para cá, falam e você lê a mensagem, lê várias vezes, lê de novo parece brincadeira, será que acordei mesmo? Sai correndo, a mensagem ainda nas mãos, punhos cerrados, você tenta gritar, emudece, tenta gritar de novo, a voz sumiu, caiu no próprio abismo de pavor, ninguém perto de você, eu digo que você devia ter saído mais, eu digo que você devia ter dado mais atenção, mais carinho. É tarde, é triste, a cidade inteira continua se movendo, mas tudo parou por que parei, parei para te ver, você achou que é sonho, mas te abraço, ri de tanta descrença e chora, a roupa está seca por que é tarde, chora por que a mancha velha do apartamento minúsculo, seminovo, que esteve sempre lá agora deixa simplesmente de existir.

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