Conto Jornada sobre o fogo, de Giovani Cavalcante dos Santos

Contundentes, as estimulações de certa parte de sua índole – as que comandavam o floreio sensual e a insinuação – formulavam-lhe termos cheios de ardor específico, e a sede incondicional, sede mágica assoladora, convincente e estonteante, bem maior do que seu próprio nome, tripudiava-lhe da garganta. Todos os termos da volúpia agitavam-lhe o rubor interno de forma vendaval; como estigma do pecado envolvente, deixava-se levar pelo prazer que sempre lhe superabundava a notória malícia inigualavelmente estimulada – mas, agora, a história se lhe ia tão profunda às camadas insondáveis do próprio corpo desejoso que custava crer no que lhe acontecia. Era bem real, alegrava-lhe a ronda, punha-lhe à pele vestígio renovado; capacitara-se a saciar e a fazer renascer cem amantes de passagem – só que, desta vez, em verve consolidada em fontes de água viva, dispensaria veementemente a maioria esmagadora daqueles para inebriar a felicidade extrema de apenas um: anjo ainda não consumado à sua regência ardente inigualável que lhe apresentava mistério embebido em refinada glória absoluta. Até onde as lembranças conduziam, vira-o antes, quando ainda não firmado como mitologia, não parando, portanto, para considerá-lo – entretanto, por fim, vicejara de repente, chegando para alumiar, e isso impunha sensação de se ver escancarar a deprimente redoma apartadora das obras sedutoras, a qual adiava o momento oportuno de bebê-las em delírios inquietantes, em momentos pródigos em graça, quase comunhão. Ainda se deliciava ao relembrar-se do sorriso nos lábios volumosos e de fruta fresca de Sergio: altaneiro, vívido, improvável aos medíocres, abrilhantando-se mais à medida que se confirmava – e tal resplendor avizinhava-se a uma castanha barba por fazer, que lhe servia perfeitamente de maior idade. A paixão em seu estado bruto se apossava das maravilhosas veias de sua procura por Sergio, proporcionando orgulho, já que nem todos conseguiam se submergir em tão intensa atmosfera fecunda e liberal daquele nível de caça atraente e abrupta. Sob o silêncio cúmplice, contaminava-se com o calor da descoberta cálida, esfuziante, que dominava seu ego sucumbente, incutindo-lhe fase longe de qualquer refúgio, sendo-lhe isto, no entanto, idílio capacitado, divinamente estruturado em suas ordens, libertador de suas águas curadoras.

Entrou no quarto de hóspedes, fechou a porta com centuplicado cuidado, e o motivo de seu íntimo estar sob a Constituição da Flama lhe retiniu aos olhos sedentos: encontrava-se na cama logo à frente, a ressonar mansamente, cansado da viagem. Enterneceu-se ao contemplá-lo, como se respirasse a neblina total, onírica, provinda vigorosamente do peito de Sergio, a incendiar-lhe a existência. Ansiava por esfaimar-se, noite e dia, com o teor da excelência dele, o único belo teor dele. Parecia-lhe, pois, que o corpo dele não tinha conhecido inverno ou outro desânimo. Sergio. Ah, poderia explanar esse nome em vários, senão em todos os círculos próximos, totalmente entregue ao frenesi e à fascinação. Surgia sensação de tentar pegar a rosa à beira do abismo. Crepitavam-lhe ao peito muralhas de fogo. As quatro paredes se tornavam asilo, e a pele de quem investigava, insaciável e pueril em seu modo particular, vertia sedução legítima, acima de tudo que era desejo descrito pelas mentes simplórias. O lençol tombara-se aos pés da cama, não mais acobertando o ente desejado, exercendo sobre este, ainda mais, a condição de tentação convincente através da tocante obscuridade leitosa reinante. Apregoavam o paraíso encarnado como seu primo em segundo grau – mas para que os estudos da subordinação de genealogia justamente no deslumbrante evento? Para que calcular? Não tinha porque fazê-lo agora, nem o queria. Somente ganas de amá-lo, legitimidades sem titubeações, lhe vinham à baila. O ambiente, em esmerada essência irrespirável, acetinava-se, parecia menor, mais aconchegante, favorecendo a apreciação do desígnio majestoso impregnado de promessas de fortes emoções. As coisas ao redor perderam o valor em detrimento ao veludo trigueiro; deleitava-se com a visão do braço atlético apoiando-se jovialmente à cabeça; o tórax de contornos hercúleos com vincos, vales e montes acomodados sob a perfeita magistratura monumental e afogueada do ser. E como se não lhe bastasse o ápice mordaz deste instante gravado no lado ardente do tempo, informações sedutoras impostas mais cedo lhe voltavam sob a voz de Sergio, a qual, em estado avançado de despreocupação – peculiar a quem se banhara de beleza e de férias – falara-lhe sobre dormir nu, mas, em respeito à casa acolhedora, vestir-se-ia apenas com samba-canção, significativo e inclemente traço de pudor não condizente ao monumento esplêndido, cuja beleza fomentava, até na alma mais indiferente, a vontade de sibilar nas odisseias infamantes soerguidas imperiosamente pelo desabrochar daquela masculinidade.

Antes da chegada do distúrbio entorpecente – galardão inestimável e inesquecível -, empalava-lhe a soberania física a certeza de que só a preparação, o estímulo arquitetado há algum tempo, o estudo do desejo consentiria vereda primorosa estabelecida ao destino do prazer carnal, em doce jogo de gato e rato com a conquista servil pretendida; sua parcela racional lho exigia e o comprovava com as investidas bem-sucedidas entre quem lhe partilhava da arte do prazer. Gostava de manejar calma e habilmente o cabresto rumo à sua cama, de obter a atenção exclusiva de quem lhe inspirava prazeres inexprimíveis, de conscientizar-se, em primor de altivez, às primazias floridas de quem lhe estendia quentes oferendas à sua quimera selvagem. Vitimara-se imediatamente, contudo, com o excesso de beleza lirial vinda da aura Lolita, cujo provocar zombeteiro mesclava-se às manhas vibráteis de alguém muito cônscio de seu poder de sedução. Não havia queda em querer tal delícia, não havia apogeu – só existia a pele plenamente incentivadora de suas carícias! Reconhecia que sua urgência não tinha conhecido maravilha semelhante até Sergio expor-lhe a curiosidade sobre sua mitológica altura, sobre sua mansidão quase incoerente, sobre o deliciar-se ao comer as sobremesas à base de chocolate branco, sobre o gostoso som obstinado de seu sotaque tão definitivo… Enfim, a mentalidade morrera em prol da ação da prioridade de verdadeira fera inquieta, cuja marcha de todos os tons apreciáveis arranhava-se cegamente às ramagens da densa floresta e refletia-se na água do insustentável rio principal, fera abençoada pelo tempo e pela brisa, fera pautada pelo silêncio mesmerizante, hipnotizando gravemente o paraíso em volta até encontrar abrigo em alguma casa de paixão.

Com instrução semeada pela malícia e pelo regimento atrativo, aproximou-se de Sergio, pé ante pé, ansiedade permanente, curvou-se ligeiramente e começou, sem encostar-se à pele de quem agradava a seus termos inegociáveis, a executar inspirado balé na escuridão…

Respirava ao mesmo tempo em que a extensão macia em submissão ao sol; mordiscava o lábio inferior debaixo do desejo de interagir, integrar-se, martirizar-se sedutoramente à esplêndida e torniturante exatidão da triunfal façanha mais do que viva. Não se debruçava de todo sobre seu talismã inspirador por precaver-se às inconveniências gerais de deflorar o quadro mágico da inocência desprotegida misturada em igual parcela à bruta negociação da máscula pujança do instinto inconvencional que só renascia em Sergio. Longe mas perto, em movimentos de gaivota, circundou poeticamente o rude peito esquerdo, deliciando-se com os arrepios sobrevindos. Descia, descia suave, descia a mão sobre os músculos salientes do abdome, armando-se de vertigem avassaladora. Contorceu-se, reino ardente, até chegar-lhe ao umbigo, confirmando a louvável mudança de suas impressões digitais em primícias de fogo, a tracejar-lhe a fundura e a modelagem. Com pouco mais de sabor de tempo parado, de colheita de pérolas preciosas, de extração de vitória apaziguadora, a tântrica missão mirabolante da aranha de cortejo e de carne alojou-se, com ódio à inóspita gravidade acautelada, na parte mais vertiginosa e incontável da volúpia inquietante. Não se desviara a nenhum lado, seguira em retidão não perturbada. A boca aliciadora salivava pronta a ser redentora, e, outra vez, ambas as peles representavam otimamente os graus regentes da Natureza: uma era caça, outra, dominante. Ventos circulares e indomáveis vagas renasciam em forma de ungidos polegares e anelares anelantes. Não precisava se ater às palavras nem procurar outra justiça: Sergio e suas artimanhas discretas e movimentadoras bastavam avivadoramente a endoidecer cada um dos poros de sua sexualidade.

Sergio remexeu-se na cama, singrando-se nos mares do total desprendimento de si próprio, o que bastou para que, no entanto, sem-número de sinais de alerta se constrangessem à cabeça de quem o visitava, a colaborar com o rompimento da teia da exploração noturna, intoxicante. Só havia espaço a uma pergunta em sua mente, esta agora considerada torpe: O que pretendia fazer?

Súbito, recolheu, em incrível relâmpago, o instrumento utilizado a aprofundar suas rudimentares sandices inteiras, como se o primo tivesse queimado suas fundações mais secretas. Não que o tivesse despertado mas, mesmo assim, um pânico instantâneo, revelador, instruído, desenvolveu-se do nada, geração espontânea, fogo-fátuo incômodo em forma de corredor de imundícias pelo qual quase passara sem qualquer bravura. Medo extremo, estranho, insinuou-se-lhe. A coragem e a essência de vida em pecado escaparam-lhe. A dúvida maldita, outrora inacessível, despontou de maneira ferrenha: E se o parente acordasse? Se lhe adivinhasse os gestos sem misericórdias, de erotização evidente, primordiais à tentadora existência? Se Sergio se deparasse de repente com suas experiências à obscuridade? Por que o avanço agora maculava, visto que se habituara às leis da vontade e da luxúria? Querê-lo tanto estava pondo-lhe demência à vivacidade! Uma coisa jamais instaurada, improvável antigamente! Instaurava-se em dédalo consumado, enlouquecendo-se de um jeito que nenhuma aventura tinha lhe feito antes! Como um pavor deste naipe assolara alguém que já se especializara em espalhar paixões? As engrenagens das hipóteses configuraram-se em sua potência, trazendo-lhe de volta a sensatez; sentia medo disforme; poderia gerar contendas infindáveis na família, as quais não seriam abrandadas com simplórios pedidos de desculpas. Via as pontas soltas, as falhas do projeto, as piores falhas, e pleiteava-se com elas somente agora, quando quase vislumbre de auge especulava seus êxtases. Culpa. Vergonha de importunar alguém que não lhe conhecia os interesses… Era a primeira vez que o mal dos tímidos – o recuo, o receio de ultrajarem sua solicitação imperiosa – humilhava suas considerações para com a lógica. Orgulhava-se de ser atraente – figura amiga do pecado renovador e ressurgente a cada dia -, de controlar as regras do jogo sem preocupar-se com a opinião de quem lhe amava o corpo-, e… tudo mudara com a imposição do delírio de nariz meio tortinho e de jovialidade retumbante, inclassificável. Tudo se misturava, dentro de sua mente, dentro de sua alma. Nada havia sem Sergio. E o reconhecia: poderia operar qualquer ato para transitar nos territórios da paixão e do desejo sem nódoas dele, exceto aviltá-lo, corrompê-lo. Que ironia! Que loucura! A inconsistência, as inconstâncias vieram-lhe para atemorizar. Parecia-lhe o fato de ir àquele progresso interessante da humanidade, tão inquestionável e anulador de suas intelectualidades atualmente vãs, uma loucura, uma ideia intolerável. Sentia-se a invadir um mundo que não lhe pertencia ainda, a faltar com respeito ao pretendido deus, a fazer frente viscosa a um referencial que não deveria ser violado. Sem falar que era um crime assediar sem permissão… Que horror! Que medo! Que paixão! A paixão, quando muita, faz qualquer um ter medo de magoar, de constranger, de não mais ser vivido. E isso lhe vinha! De repente, a paixão nascida em apenas um dia… De repente, o medo… Paixão… Medo… Os movimentadores do mundo ajuntavam-se à mesma vital constelação, apregoando-lhe a mudez, o tétrico, a ingerência, o conflito maior!

Erguendo-se de modo discreto, deu um passo para trás, agarrando a mão que o bem e o mal talhara à plenitude revolucionária e completa da agrupação de perfumes masculinos que só o corpanzil irresistível de Sergio tinha a sapiência insinuante de produzir. Asco de exterminar absurdamente a força magenta que os reunira pelos férreos laços de família sagrou-se. Outro passo, sem esbarrar-se em objetos, fuga sem vida, entre pudores de destruir o quadro justificador de seu fôlego, mas que não lhe imaginava o irascível fogo. Virou-se, tentativa de escapar, incontrolável, sentindo-se sem predicados honrados, a emoldurar-se na escuridão indescritível. Outro passo, voltando-se em contorcionismo especial a ver Sergio de soslaio, louvando-o por ângulo ainda mais interessante, maravilhando-se, quase se convulsionando, querendo voltar-lhe à cama, não querendo voltar-lhe à cama, já não mais sendo quem era, em pandemônio de torpor, através da fome e do temor de interagir com tudo que Sergio lhe entregasse, lhe distribuísse! Regressou à porta, mais sem jeito do que toda a população que empesteia a Terra!

– Rodrigo? O que tá fazendo aqui? – assustadiço, abrindo os olhos, ainda sonolento, virando o corpo à esquerda em velocidade prodigiosa, Sergio perguntou ao espectro insaciável difusamente confuso. Reconhecera-o devido à capacidade felina que muitos poucos possuem de conseguirem enxergar perfeitamente no escuro. Ninguém saberia definir que força sobrenatural o tinha despertado àquele instante, pois seu sono não fora confrontado por sonhos ou por pesadelos intuitivos, mas sentiu-se impelido a acordar, apenas isso. O que era pior: sua voz firmada não apresentava cor de desejo ou de fúria.

Rodrigo, atarantado, estacou-se no lugar, trêmulo, sem voltar-se, o rosto pálido a mirar a porta de madeira, longe de qualquer espécie de paz.

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