Conto Chegada, de Maria Rosa de Miranda Coutinho

A madrugada gelada da grande cidade anunciava um longo amanhecer.

Na calçada – quase vazia – um vulto se movimentava, freneticamente, entre a forte neblina em direção ao sinal.

Werá olhava atordoado para os altos edifícios girando o seu corpo sem encontrar, naquele instante, um ponto fixo. Apertava insistentemente seu colar de miçangas implorando segurança. Sentia-se vivo apenas na memória da aldeia que ficou trançando histórias entre a serra e o mar. Seu rosto magro, com os traços indígenas escondia a fascinação pelas oportunidades urbanas. A juventude lhe tornara ambicioso e confuso diante dos mistérios da multidão.

Invisível, atravessou a larga avenida respirando as incertezas e diferenças. Aguardou o ônibus, inquieto pela demora. Resmungou algumas vezes, no seu idioma, o quanto estava perdido e encolheu os ombros. Sabia apenas que deveria embarcar no 0215, sentido bairro. Finalmente, avistou o transporte que o levaria à periferia. Tinha no bolso o endereço que o professor da aldeia lhe entregara antes de sua partida. Quem sabe teria sorte em sua busca, apressando assim seu descanso – pensava.

Werá sentou-se lentamente na última poltrona – único lugar disponível – ao lado de uma jovem senhora. Acomodou no colo sua mochila velha, segurou firme na lateral de seu assento e abaixou a cabeça.

A mulher interrompeu seus pensamentos quando perguntou sobre seu destino. Com voz baixa e um português compreensível, contou que deveria encontrar a casa de uma pesquisadora da universidade para se preparar e iniciar a faculdade. Contudo, tinha receio de não encontrá-la na cidade e perder a estadia arranjada por um professor Guarani. Durante toda a viagem, a mulher o escutou com atenção e o questionou sobre seus planos de estudo. Entusiasmada, manifestou admiração por sua determinada escolha profissional.

Werá deixou seu povo para estudar Direito e um dia, talvez, defender seus espaços, suas ideias, seus sonhos.

O ônibus já havia percorrido, aproximadamente, dez quilômetros quando o jovem ergueu-se para observar sua localização. A acompanhante, percebendo seu olhar aflito, o interceptou interessada no endereço que ele trazia consigo. A resposta foi precisa: ¨ Rua Novo Horizonte, número 21¨. Enquanto Werá olhava as ruas, ansioso, ouviu uma voz tranquilizadora: ¨ Este é o meu endereço Werá. Sou a pesquisadora que procura. Prazer, Liza Home¨.

O ônibus parou e Werá caminhou em direção à porta com o sorriso tímido que levaria junto com ele sua guia. Tocou levemente o colar de miçangas memorizando cada cor. Lembrou-se da despedida na aldeia e do amanhecer em outro chão. Levantou a cabeça exibindo confiança. Naquele momento, o jovem Guarani sabia que a chegada era só o início de sua nova trajetória.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s