Conto Roda-gigante, de Nina Spin

Quando algo termina, a gente sabe como é. Mesmo que demore alguns dias, há aquele momento no qual percebemos o fim. O tal ponto final. Machuca, porque lidar com finais nunca vai ser a qualidade de quem fica. Mas com começos é diferente: não há um exato ponto de partida, aquele click que nos faz cair a ficha.

Pode começar bem assim: num dia você está ok, sentindo-se apenas mais uma e, três meses depois, encontra uma pessoa que a faz perceber que sentir-se especial é bom, é tudo aquilo que sempre quis. A partir de então, não há mais como retornar. Porque tudo já começou e refrear isso é como perder-se de si mesma.

Todo começo é uma perda de controle. Um emaranhado de coisas simples e complexas que nunca, nunca mesmo, você será capaz de entender sozinha. Só vai entender se partilhá-las com outra pessoa. Aquela pessoa que, num dado momento, fez você sentir-se especial.

Ela me fez querer sentir especial. A verdade é que eu nunca imaginei que alguém pudesse entrar na minha vida para modificá-la. Até que Mel, na primeira aula de Matemática com o novo professor carrasco, levantou a mão e soube responder o que eram Números Naturais. Não demorou muito para a turma começar a chamá-la de nomes poucos sociáveis e, assim, rebaixá-la a uma aluna excluída. Ao contrário da maioria, eu gostava de me dar bem na escola e, portanto, Mel se tornou alguém que diretamente eu admirava na sala de aula. Minhas primeiras notas do bimestre foram razoáveis e, na prova final de Matemática, pedi ajuda a ela.

Ninguém, até então, tinha lhe requerido algo, sequer conversado com ela de igual para igual. Mas eu o fiz não somente devido a minha ânsia de conseguir o primeiro 10 naquela matéria; a verdade é que, quando a gente admira alguém, acompanhar essa pessoa de longe não é o suficiente. É preciso estar perto, saber decodificar seus pensamentos e entender quem é ela, de fato. Era isso que eu pretendia. Ser amiga de Mel.

No entanto, nunca poderia imaginar que, já naquela época, ela estava mudando a minha vida.

Quando o novo bimestre se iniciou, já éramos grudadas. Guardávamos segredos uma da outra, tínhamos piadas internas e partilhávamos as boas e más notícias. Não conseguia me recordar de tempos mais felizes do que aqueles. Não havia um dia sequer que eu não voltava para casa carregando um imenso sentimento no peito, que parecia assumir o fato de que ter Mel ao meu lado era incrível – era um sonho, o paraíso.

Mel me fez querer ainda mais ser especial, mas para ela. É bom sentir-se especial para si mesma, mas é ainda melhor se for para outra pessoa, alguém que sabe reconhecer a sua expressão de tristeza, ou que entende um simples olhar irônico.

No primeiro fim de semana das férias de inverno, há um mês, minha mãe me deu de aniversário uma noite no Parque Tupã. Chamei a Mel para me acompanhar, porque voltar a “ser criança” com a nossa melhor amiga é a melhor coisa da vida. Ganhei ursinhos em várias barracas, andamos de bate-bate umas cinco vezes e enfrentamos a montanha-russa. Quase no final, Mel olhou a roda-gigante e me puxou para a fila. Eu nunca tinha dado muita importância para esse brinquedo, já que ele não é agitado, nem nada assim. Mas compramos os ingressos, porque Mel parecia com muita vontade mesmo daquilo. Achei que fosse porque, apesar de a roda-gigante não ser muito alta, desse para ter uma vista privilegiada do parque.

Mas não.

Quando paramos por dois minutos lá no topo – realmente tendo uma vista incrível do parque e dos arredores dele –, Mel comentou num tom totalmente normal e casual:

– Deve ser legal ser beijada no topo de uma roda-gigante.

Eu, que nunca tinha sido beijada, só dei de ombros e concordei. Agora, já com 15 anos, aquilo meio que me preocupava, apesar de eu não fazer grande alarde sobre a questão. Os garotos da turma eram divididos em três categorias: 1) os que pouco falavam, de modo que não dava para ter uma conversa minimamente decente com eles, 2) os que falavam até demais e, por conseguinte, se achavam o máximo e 3) os que eram alunos-modelo e, por isso, muito esnobes. Não era muito difícil imaginar que, se eu fosse beijar alguém, não seria nenhum deles.

Hoje, estamos no parque de novo. É o último dia de descanso antes das aulas e eu ainda não beijei ninguém. Não que eu esteja desesperada – não é como se eu fosse encontrar um garoto em plenas férias e começar a sair com ele. Coisas assim parecem possíveis somente em filmes. E a minha vida não é um filme.

Andamos pelo gramado por um tempo, antes de decidirmos qual é a nossa próxima parada. Rendo-me a um algodão-doce e, dez minutos depois, tenho uma ideia. Quer dizer, é como se eu não pudesse controlar essa ideia. É como uma enorme onda de inspiração, não dá para ignorar. Então, eu puxo Mel.

– Caramba, Vivi, você vai arrancar o meu braço desse jeito! – ela reclama. Eu rio e confiro sua expressão também risonha. Quando entramos na fila, Mel estranha e comenta: – Você nem ficou animada com isso daqui naquela vez.

Olho para o topo da roda-gigante, que está toda iluminada e todos os carrinhos coloridos parecem partes de arco-íris.

– Eu não tinha entendido antes – respondo simplesmente, encarando-a.

Apesar da franja, consigo observar Mel franzir as sobrancelhas claras. Ela fica me fitando por algum tempo, até que pergunta:

– Entendido o quê?

Não respondo. Em vez disso, dou de ombros. Sei que ela estranha minha atitude, já que sempre verbalizamos nossos pensamentos. Mas dessa vez, se quero fazer isso dar certo, tenho que ficar calada. Permaneço assim até nos ajeitarmos no acento. Quando a estrutura começa a se mover, sinto meu coração bater ainda mais acelerado. Sei que não é o efeito da altura.

São precisas duas voltas para que, enfim, estejamos no topo, imóveis. O carrinho balança um pouco, mas estamos no ponto mais alto do parque.

– Parece estranho – Mel fala – Não acho mais graça nisso aqui.

Fico surpresa.

– É por causa do beijo?

Ela vira a cabeça instantaneamente para mim.

– Quê? – questiona; os olhos divididos entre a desconfiança e o alarme.

– Você disse que devia ser legal ser beijada no topo de uma roda-gigante.

– É. E daí? Foi só um comentário. Ninguém entenderia isso.

Quero gritar que eu entendi. É claro, demorei a entender. O começo é sempre nebuloso. Mas, aos poucos, tudo foi clareando como um amanhecer. A luz se infiltrou em meus pensamentos incessantes vagarosamente e, enfim, quando tudo era um clarão, tive que parar de negar e começar a admitir.

– Eu não entendi naquela noite, sabe? – digo, meio incomodada. Dizer a verdade para ela parece difícil. Intimidante. Acho que é porque ninguém sabe ao certo como dizer uma coisa dessas a alguém, por mais que saiba que deveria. – Mas entendo agora.

Mel se limita a uma palavra:

– Ah.

Fico ansiosa. Ela deveria estar olhando para mim e sustentando o seu ar divertido que aprendi a gostar. Mas não é isso que vejo. Seu rosto está virado quase que completamente para o outro lado, enquanto finge estar admirando as luzes da cidade.

– Mel, eu sei. Eu entendo, porque eu sei.

Isso a faz me olhar por uma fração de segundos. Parece que está brava comigo, pelo jeito que sua expressão está contraída.

O que você sabe, Vivi?

Não há medo, nem pânico em sua voz. Existe, na verdade, um tom inconfundível de desafio.

Ok, é a hora. Preciso dizer.

– Sei sobre a roda-gigante. O beijo. Eu o quero também – ufa, parece uma boa resposta. Certo? Não que revele explicitamente toda a verdade, mas… Por ora, é isso que posso dizer.

– Você nunca me contou – ela me acusa, mas parece que não está ligando muito para a minha confissão. É porque ela não entendeu a situação do modo como eu entendi. Sua compostura volta a se normalizar e a vejo mais relaxada.

Torço meus dedos. Isso está saindo do controle, exatamente como nunca previ. Por que coisas assim nunca dão certo de primeira?

– Não. O beijo. Você não entendeu – mal posso esconder meu tom de decepção.

Minha ideia acabou de morrer. Suspiro. Ah, mas que novidade. Talvez seja por isso que eu nunca tenha beijado ninguém. As coisas não tendem a dar certo comigo. Acho que é porque, de alguma maneira, eu sempre acabo estragando tudo.

– Não estou entendendo mesmo. Você está estranha hoje. Quer dizer, agora – Mel rebate, me olhando meio surpreendida – Parece que está falando em códigos.

Talvez o amor seja um código, penso.

Talvez seja por isso que seja difícil de entendê-lo. Poucas pessoas sabem decodificá-lo corretamente.

– Tudo bem – eu digo. Inspiro com força e fecho os olhos. Vai dar certo. Vai dar certo, porque esse código eu conheço. Conheço Mel como ninguém da escola conhece. Conheço Mel de um modo que até gostaria de não conhecer. Mas coisas assim são inevitáveis. Ajeito-me no acento e a encaro. Vai dar certo – Eu sei que aquele beijo no topo da roda-gigante é sobre mim. Você quer me beijar no topo da roda-gigante, Mel.

Sinceramente, essas palavras saem estranhas e distorcidas na minha cabeça. Parece que acabei de cometer um assédio verbal, ou algo assim. Mas sei que estou certa, pois Mel, no mesmo instante, afasta os olhos de mim. E tudo o que recebo é silêncio.

– Não estou com medo – garanto. Parece a coisa mais idiota que já falei na vida, mas preciso dizer algo para amenizar o que estamos sentindo. – Não tenha medo também, Mel.

– Eu não estou com medo – sua voz não parece nada convincente.

E, então, a roda-gigante começa a se mover de novo, nos levando para baixo. Completamos mais uma volta e nos mantemos paradas lá em cima de novo. Mel arrisca um olhar de soslaio para mim.

– Olha – ela está nervosa; posso constatar isso, porque suas mãos não param de alisar o cabelo –, você entendeu tudo errado.

Não sinto nada. Nem raiva, nem mágoa.

– É você que não tem coragem – respondo.

Não é nada legal chamar a sua melhor amiga de covarde, mas às vezes é preciso. Isso surte efeitos nela: no mesmo segundo, ela crispa os lábios e parece expor um semblante culpado.

– Eu sei – Mel sussurra a centímetros de mim.

Encaramo-nos.

Ela sabe?

Não pergunto isso em voz alta. Não há necessidade.

– Você entendeu certo, Vivi – Mel confessa – Só não sei se…

– O que pode dar errado? – interrompo-a, arqueando minhas sobrancelhas.

Ela está na defensiva, constrangida.

– Esse é o lugar mais alto em que já estivemos juntas. Não parece perfeito? – pergunto. Mel assente, mas continua vacilante.

– Não tenho certeza se… – ela ajeita o cabelo mais uma vez – Bom, se isso é certo. Parece o certo agora, mas e se não for amanhã?

– Você está me perguntando se vou me arrepender? – eu sorrio. Não consigo ficar ofendida nem por um único segundo. – Não vou. Eu já disse que não estou com medo.

– É, mas… – ela não termina a frase.

E eu sei qual é o final dela.

Ela está com medo.

Ajeito seu cabelo e, depois, junto nossas mãos. Elas parecem feitas para isso. Não parece estranho, ou qualquer outra coisa.

– Beijar alguém no topo de uma roda-gigante, hein? Isso nunca passou pela minha cabeça – eu digo.

– Não sei por que passou pela minha – Mel responde.

– É porque, quando gostamos de alguém, só conseguimos sentir. E tudo o que você queria sentir, naquela noite, era isso.

Mel sorri para mim.

– Como é que você sabe dessas coisas? Como você consegue estar dentro da minha cabeça? – ela quer saber.

Não sei responder, então dou de ombros, soltando uma risadinha.

Damos mais duas voltas completas e quando, pela terceira e última vez, o carrinho para no topo, eu sei que é a hora. Com ou sem medo.

Minha mão que não está na dela para em seu cabelo. Nossos rostos se encontram e, em meio às luzes do parque, nos olhamos de perto. O mais perto que já chegamos uma da outra. Vai dar certo.

Dá certo.

Nosso beijo no topo da roda-gigante acontece. Dura apenas alguns segundos, simplesmente porque nem eu nem ela sabemos o que, de fato, precisamos fazer. De qualquer modo, é o suficiente para um primeiro beijo.

Eu sorrio e, em seguida, ela me abraça. É inesperado, mas aceito o gesto imediatamente. Mel diz perto do meu ouvido:

– Não sabia que seria tão incrível.

– É porque estamos no topo.

Ela se solta de mim e me encara.

– Não. Não isso – Mel nega – Saber que quem amamos nos ama de volta. É incrível.

Concordo com outro sorriso. Ficamos em silêncio até estarmos em terra firme.

O amor até pode ser um código, mas, se lido nas entrelinhas, sempre funciona. E aquele começo nublado se torna somente um vestígio de algo que, agora, se engrandece. E, se tudo der certo, nunca haverá um final.

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Um comentário sobre “Conto Roda-gigante, de Nina Spin

  1. uau… o conto é simplesmente lindo e muito muito doce. Li com um sorriso no rosto do início ao fim! Parabéns… você conseguiu com que eu sentisse o que elas estavam sentindo!

    “– Eu não entendi naquela noite, sabe? – digo, meio incomodada. Dizer a verdade para ela parece difícil. Intimidante. Acho que é porque ninguém sabe ao certo como dizer uma coisa dessas a alguém, por mais que saiba que deveria. – Mas entendo agora.” Falar a verdade é sempre libertador, mas, muito assustador realmente. Houveram vários trechos que eu achei apaixonante no conto… esse é apenas um deles.

    Lindo conto!

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