Conto Viena, de Regiane Folter

Quando as notas soam, aquelas velhas notas conhecidas, Joel tem uma sensação de deja vú. Como se uma serena voz, não a da canção, mas uma bem parecida, dissesse “pois é, rapaz, está na hora de você relembrar algumas coisas”. E então ele se isola daquela correria insana que corrompe seus dias e noites insones, e começa a ver. Realmente enxergar, absorver o mundo que está intocado ao seu redor e que ele perde por estar encoberto pela pressa. Não haveria hora mais inoportuna para ele começar um momento reflexivo inesperado, definitivo e inadiável: Joel estava em um velório.

Billy tinha vivido seus 22 anos de uma forma intensa, louca e rápida. Rápida demais. Ele estava vivo e tinha vontade, e isso lhe bastava, era o gás para aquele veículo desgovernado que ele chamava de vida. A intensidade era tanta e Billy era tantos que nunca se soube realmente quem era. Só o que ficou depois que ele partiu foi a lembrança de um jovem que não sabia como ir devagar.

É engraçado o poder que uma música tem em nossas vidas. Em um momento é só um meio de entretenimento tão vazio quanto qualquer outro e no momento seguinte nos atinge como um raio, como uma revelação divina. O som invade nosso cérebro e conserta o que estava torto, o que não encaixava. Foi assim que Joel se sentiu ao ouvir as primeiras notas que um pianista começou a tocar, meio que brincando, no piano do canto do salão cujas teclas desgastadas já não produziam o melhor dos sons. Mas ainda assim, era aquela canção. E ele não teve outro remédio além de ser tirado do redemoinho emaranhado que era a sua cabeça e o seu coração e ter pela primeira vez em dias um momento de paz. Tudo era branco e não havia dor, preocupação ou outras interferências indesejadas. Depois de alguns segundos, tempo que levou para ele se acostumar a estar tão quieto, a lembrança que começou a passar em câmera lenta em sua mente era a memória de um rapaz moço demais, apenas mais um jovem que achava que sabia tudo sobre os mistérios da vida e da morte. Era uma memória de Billy.

– O que você está fazendo em pé a essa hora? – perguntou Joel, emergindo da penumbra do quarto para a meia luz das estrelas que iluminava o terraço. Em pé, contemplando as emoções insanas da cidade que ainda permanecia acordada graças ao trânsito, os outdoors e os bêbados, Billy não se assustou.

– Eu tive uma ideia. Uma ideia para o roteiro, eu digo. E quando tenho uma ideia, preciso sentar e escrever, se não ela foge.

– São quatro horas da manhã. – respondeu Joel, tentando evitar o tom de sermão. Ele sempre falava com Billy com cuidado, com receio de ser mal interpretado. Isso era o que acontecia quando adultos quase na casa dos 40 resolviam se relacionar com crianças de 20 e poucos, pensava ele, amargurado.

Billy deu de ombros, sorrindo enquanto jogava a cinza do cigarro já pela metade no mármore claro que cobria a sacada. E quando sorria assim, Joel se esquecia de todos os motivos racionais para não estar com ele.

– Volta pra cama.

– Só depois que eu acalmar minha cabeça e colocar as ideias no lugar. E no papel. – Billy indicou com a cabeça as muitas folhas soltas que forravam a mesinha de ferro pintada de branco cuja única utilidade era servir de enfeite. O roteiro estava lá, sua história esparramada, seus personagens ainda meio perdidos. Joel pegou uma folha e leu alguns parágrafos, sem conseguir deixar de pensar até quando aquela mania de escritor iria passar e por qual próxima aventura Billy iria se enveredar depois dessa.

– O que você não percebe é que Viena vai esperar por você…

– O que disse? – perguntou Billy, distraído. Joel esperou que ele desse a última tragada para conduzi-lo de volta a sala e o fazer sentar ao seu lado no piano que ocupava dois quartos do espaço, mas que era tão indispensável para Joel quanto a geladeira.

– Você conhece essa canção? – perguntou, dedilhando pela milésima vez as mesmas notas que um ano depois iriam atrair toda a sua atenção durante um velório e que a partir daquela noite perdida iriam carregar para sempre um significado completo.

Billy ouviu, atento, sem tirar os olhos do rosto de Joel por nenhum segundo. Ouviu a canção sem sorrir, prestando atenção. E ele ficava tão belo assim, parado. Talvez porque nunca ficasse tanto tempo sem se mexer, é que parecia ainda mais bonito quando podia ser apreciado. O que é difícil se torna tão intocável e, assim, tão irresistível.

Quando terminou, Joel não falou nada. Achava que não precisava. O que precisava ser dito, já tinha sido dito pela música.

– É a primeira vez que alguém me faz uma serenata. – foi a primeira coisa que Billy falou para quebrar o silêncio. Colocou no rosto um sorriso travesso e passou a mão suavemente pelos cabelos de Joel, que por um instante se apavorou pensando se o rapaz perceberia o punhado de cabelos brancos.

– Você sabe o que dizem sobre Viena? Dizem que é a melhor cidade para se envelhecer no mundo. É engraçado você falar sobre Viena, porque eu pensei um pouco sobre envelhecer esses dias.

Billy se levantou e deu algumas voltas pela sala, já de volta ao seu estado de constante movimento, os olhos varrendo incessantemente a sala, suas mãos gesticulando com uma rapidez e uma graça que Joel imaginava não serem possíveis de se combinar em qualquer outra pessoa.

– Eu não vou envelhecer muito, Joel. Eu vou viver muito no sentido qualitativo, mas não no quantitativo. E para mim tudo bem, sabe? Não vou me acalmar. Não vou ir mais devagar e nem ser menos ambicioso – e nem menos jovem! Talvez exatamente porque nunca serei menos jovem. E isso não me assusta. – sua voz ia se tornando mais alto e mais límpida enquanto ele falava e não havia rastro de autocomiseração ou dramaticidade em sua fala. Isso ele guardava para os personagens do roteiro interminável que escrevia há meses.

– E isso também não deveria te assustar. – disse ele, ajoelhando na frente de Joel e segurando suas mãos. Em seus olhos, uma ternura quase angelical. – Nós temos tanto a fazer e apenas tantas horas em um dia! – explicou, sem explicar, com uma frase contraditória o que a música dizia e que era a tradução dos seus próprios sentimentos.

A memória se apagou como uma chama de vela se extingue. Joel se lembrava vagamente que depois de fumar mais alguns cigarros, Billy conseguiu extrair do pensamento mais uma página e meia de história e eles voltaram para a cama. E nunca mais se falou de Viena ou de velhice naquele apartamento.

Conforme a memória daquela noite ia se afastando, Joel foi voltando aos poucos, recobrando a consciência. O retinir das vozes chorosas e o zumbido dos sussurros respeitosos encheram novamente os seus ouvidos e ele voltou a enxergar os vultos enegrecidos pelo luto que rodopiavam pelo salão. O pianista ainda brincava com algumas teclas, agora acertando as notas de outra canção.

A silhueta da mãe de Billy, parada ao lado do caixão, atraiu o olhar de Joel. Ela conservava no rosto a mais exemplar face de tristeza e adoração. Ao chegar no velório algumas horas antes, Joel se perguntou se ela sabia das loucuras do filho. Mas agora, depois daquela lembrança, ele percebeu que ela, assim como ele, sabendo ou não, não amaria menos o rosto, o corpo e a alma daquele rapaz inquieto e tão atraente que impregnava o espaço com sua unicidade mesmo depois de morto. Ele era lamentado, talvez não tanto pelas amizades ou inimizades que conservou, mas pela força que inspirava. O modelo daquilo que todos queremos ser e que poucos têm a coragem – ou o completo pavor – de realmente tentar.

Billy viveu sua breve vida ambiciosa e jovem e não teve mais do que quis, nem menos do que sempre sonhou. E deixou sua marca por quem passou. Aquela sede de fazer, de ser, de tornar-se e voltar a se transformar. A confusão que ele provocava, com sua calma inabalável, era tão intensa que, antes que a pessoa se desse conta, já estava perdida. Perdida no mundo de possibilidades e portas abertas e realidades que poderia viver, que poderia experimentar. Mesmo que, para isso, tivesse que perder um dia ou dois. Ou a própria vida. Viena esperaria por Billy e por todos as outras crianças loucas e que carregam dentro de si aquela ânsia, aquela necessidade de urgência, de vida. Mas Billy, assim como tantas crianças loucas, escolheu não esperar por Viena. E foi por isso que ele viveu e foi isso que o matou. Por ter uma crença absoluta que todos os sonhos poderiam se tornar realidade – e por sonhar demais.

Você pode conseguir o que quer, ou apenas envelhecer. Ou ouvir aquela canção de vez em quando, como Joel faz, para manter o imperfeito equilíbrio entre continuar encontrando novos fios de cabelo branco ao mesmo tempo em que vive diferentes vidas, diferentes sonhos. Porque cada fio de cabelo branco novo encontra uma cabeça diferente, mudada por se deixar entregar a todas as muitas oportunidades que estão à espera. Talvez esperar viver tudo que há para se viver seja arriscado demais. Talvez não. Mas no final de contas, independente do que decida, Viena continua esperando por você.

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