Conto Desterro, de Valéria Bicca Ferrari

Sentavam juntos, gostavam de coisas parecidas, algumas simples como o sonho açucarado com creme de confeiteiro amarelo, acompanhado por um Grapette gelado, o refrigerante de uva que efervescia, se aberto quente, saltando para todos os lados. No recreio, não eram dados a correrias, nada de se misturar com a turba que se empurrava tentando acertar a bola do espirobol. Preferiam caminhar pelos pátios, pelas galerias, do imenso colégio do início do século, conversando.

Sempre tinham assunto e nem sempre concordavam. Discutir era um esporte apreciado por aqueles dois. Para tanto, se armavam com leituras de livros indicados pelo professor de Português, ou qualquer outro que descobrissem nas bibliotecas : primeiro, na da escola e depois, na municipal. Disputavam a liderança nas notas, é bem verdade, mas nunca deixaram de se ajudar. Um, não admitia seguir em frente, sem o outro. Quando eram mudados de lugar, na sala de aula, não deixavam de trocar olhares de cumplicidade e, na hora do trabalho em duplas, moviam montanhas de classes para se encontrarem.

Uma manhã, diante de um texto que redigiam, entraram em atrito por causa de uma palavra. Nem por ouro, nem por prata, ele cedia. A maldita da palavra não entraria na frase e ponto. Assim, sem muita explicação. Aquilo foi dito com tanta veemência, que ninguém ousaria discordar, nem quem apreciava uma discussão.

_ “Se quer continuar o trabalho, tire logo esta palavra , não gosto e pronto. Encontre outra para colocar no lugar deste BASTA.”, disse exaltado.

A reação desmedida possuía uma estreita ligação com algo que era possível intuir, sem, no entanto, compreender. Quem poderia saber que, em casa, a tal palavra era proferida com raiva pelo pai ao se deparar com as “esquisitices” do filho. E que, como era costume nas cidades interioranas, este filho seria induzido a ir estudar no exterior, por lá fazendo a sua vida, longe da maledicência do lugar, sem cobrir de vergonha a família.

Quase cinquenta anos depois, ela ainda reluta em usar a palavra que ele rejeitou. Lembra, com saudade, do menino doce. Alto demais, magro demais, delicado demais para aquele mundo embrutecido.

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