Conto A águia de aquário, de Vinny Puttini

“O jovem Ganimedes cuidava dos rebanhos do pai, quando foi avistado por Zeus. Atordoado com a incrível beleza do mortal, Zeus se transforma em uma águia e rapta o rapaz, possuindo-o em pleno vôo. Ganimedes, no Olimpo, passa a servir o néctar aos deuses, uma bebida que oferece a imortalidade, derramando, depois, os restos sobre a terra” Mito grego simplificado.

Pego na garagem o carro, que devo mais que a metade, e sombrio, rodo por uma cidade que parece uma caixa de camisas usadas. Não há perdão para os meus crimes, se crimes são. Teu jeito é vulgar, e já adivinho o gosto dos teus lábios, o desejo é muito maior do que eu e do que conheço de mim. Mas quero, quero sentir tua pobreza luxuriante, tocar teu peito safado, sentir que há um pênis derramando lágrimas de paixão, rasgando tabus e segredos que nem eu sabia que tinha.

Sorrateiro e grandioso como a águia, alçamos voo. Nos conhecemos, de algum modo, sempre. Tua pompa e tua altivez, calcadas em quê? Voe. Tua boca era vulgar, sorridente, indecente, mas te desejei. Sórdido, sólido entre minhas pernas havia o desejo, muito maior que eu, outra vez. A tatuagem era o portal, o umbigo à mostra sabia de tudo que era necessário. A águia me chamava.

No copo que bebeste o vinho, olhei para a marca. Ela me atraía. Eu não sabia quem era: homem ou vilão, era menino. Tuas costas eram grandes, teu cabelo tinha gel sem álcool. Eu ninguém era: só um homem de família boa, com quase sucesso, com um passado tolo, com uma passagem rumo ao nada, desejoso de que tudo fosse diferente. Morrer pode ser bom, pensei.

Três vezes por semana vou à ginástica, ninguém diz que tenho mais do que quarenta anos. Na hóstia que comungo na missa, confesso meus sacros pecados. Tudo é beijo, e pouco me vale a oração. Penso numa panela grande, cheia de macarrão italiano, a mamma cozinha tão bem, por que tenho que ser tão sozinho?

Você pode ficar comigo da meia-noite às quatro da manhã, não há segredos que devemos guardar para sempre. E falamos tanto, sem nada dizer, nós todos. Para quê? Se o que quero é alimentar meu corpo e minha alma com os teus?

Era domingo, e meus olhos te perseguiam, na praça, e de primeira, a segunda viria cruel, com as velas dedicadas às almas na Igreja dos Enforcados. Eu estava pendurado e balançando, como os ponteiros de um relógio em desacerto.

Eu não podia te amar, mas queria tanto. Deixei de lado todas as perguntas e me aproximei, cheio de sentenças graciosas, meus sintagmas seriam suficientes, como era o meu cheiro de perfume estrangeiro. Eu confiava no meu vocabulário, moeda de troca, fera na toca, presa e predador.

Tua vantagem só era uma: a espuma que eu não via, mas pressentia derramando de tua boca e compondo sonhos que eu nem sabia ter e nutria-me: a pele tornara-se um imenso veludo brando, onde cada gesto bordava símbolos profanos, eu dava boas-vindas aos vampiros e me enrolava na mortalha.

A armadilha estava pronta. Subimos uma escadaria encardida, tudo tão barato, os ratos lá embaixo, de tocaia, nos observavam, esperando sobras. Eu nada dava – só pensava como seriam os movimentos, se lentos ou agoniados, se haveria gritos, se eu poderia chorar, se haveria emoção, se os
mitos aflorariam. Nem cobras, nem lagartos. Só o sorriso de um gato preto bem vagabundo na janela de um prédio velho.

Ao longe, ouvi a voz de um pastor, era um culto de imersão. Oremos alto, mais alto que o voo de qualquer águia: diabos, onde estão os anjos?

Na Igreja de Nossa Senhora, a voz afeminada do padre me redimia, e nos terreiros, os batuques me assolavam, eu tremia. A velha senhora de saia rodada me perguntou se eu sabia. Não. Eu não sabia. Eu nunca soube. Eu jamais saberia, porque fujo dos mistérios, mesmo que eles existam. Só quero que me prendam as asas, é tudo que peço.

Só podia contar comigo e meu inimigo, ali, tão meu. Rendi-me e tudo veio: as veias dilatadas eram um mapa de onde tocar, os mamilos enrijecidos pediam por água, regar flores do pó, viver ainda. Bebi da saliva, gostei. Ocultei as provas com minha habitual discrição e não me culpei. Deve haver uma lógica que ainda não compreendo, eis tudo. De outra vida, talvez. Palavras em cadeia linear não podem preencher buracos negros do outro lado do rio. Quanta pretensão, mas esta risada, este espanto, que bom poder ainda rir de mim mesmo.

Lá em cima, Aquário derrama suas bênçãos: caos sobre a humanidade. Já se passaram dois mil anos e não aprendemos nada.

A cidade renasceu sozinha. Entrei no bar, pedi um pão na chapa, café com leite e sorri. Eu pude, sem pudores, ser. Estivera absolutamente apaixonado pela eternidade de quatro horas.

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