Conto Ornamentos de um vitral, de Adriano J.

Ornamentos de um vitral

 

A tecnologia dos objetos mais triviais alcançaram tal destreza em suas funcionalidades que já era impossível entender como tudo aquilo funcionava. Embora fosse há muito tempo atrás, tais objetos seriam quebrados e levados para algum sacerdote que, com luvas, pudesse tocar em tais peças malignas para serem ainda mais desmiuçadas por ferramentas bizarras em busca de alguma espécie de casinha em que algum demônio se alojasse para tratar de colocar todo o seu cosmo a funcionar.

Bem que dentro da cafeteira expressa poderia haver uns mil demoniozinhos a trabalhar arduamente para tornar possível a produção de café na incrível marca de 3 segundos. Quer dizer, café era uma palavra ouvida pelos velhos e passada a duros custos para os novos, pois o que tomavam era popularmente chamada de Sincáfi. E era muito cara (o preço de um dia de trabalho para muitos seres), já que afirmava-se que havia água em sua preparação. E todos sabiam o preço da água.

Ele sinalizou com a mão esquerda no ar o movimento para pedir um copo pequeno de Sincáfi, abaixando-a lentamente, como se esta estivesse na espécie de um guindaste imaginário e, de repente, o guindaste tivesse arrebentado suas cordas e fosse necessário aplicar uma velocidade oposta com a mão. A máquina farejou o recinto com luzes invisíveis e interpretou o pedido. Farejou, inclusive, o teto do recinto em que no centro possuía uma grande claraboia de vidros coloridos, mas, obviamente, a máquina não encontrou nem um complemento do movimento do pedido lá.

– Não há água.

Ouviu a emissão de voz sintética da máquina em tom levemente grave, embora desejasse que a opção de tom neutro pudesse ser configurável nesse modelo. Além disso, a máquina era ríspida em acentuar nas frases o seu respectivo ponto final, como se o simples fato de não haver água fosse categoricamente imutável.

– Não há água.

Embora o fato de não haver água para a população fosse, de fato, categoricamente imutável, as máquinas eram abastecidas frequentemente por esse líquido precioso. Por esse motivo, o Sincáfi era o carro-chefe de vendas da Empresa que também produzia outros tipos de bebidas, mas nenhuma como o Sincáfi. Mas não podia ser negado que sua popularidade também provinha de muita propaganda virtual nas projeções espalhadas pelas paredes do Centro, além dos holofilmes de propaganda entregues aos governos municipais que, com uso de crianças haldracianas, atribuía-se, nas entrelinhas, a baixa popularidade das outras bebidas a esses seres vistos com maus olhos.

É quase tão bom quanto água, diziam os críticos especializados em bebidas sintéticas, ditos esses que foram por muito tempo o slogan da Empresa repetidamente reproduzidos holograficamente nas embalagens após serem abertas. Pelo menos estamos fazendo propaganda do Sincáfi e não da Amali diziam os programadores visuais de comerciais da Empresa numa espécie de defesa aos menos afortunados pelo menos, nós mostramos o nosso melhor produto pra quem só pode pagar por um tantinho de Amali. A Amali, entre outras bebidas da Empresa, eram misturas de líquidos sintéticos com aromas artificiais produzidos em laboratórios. Nada surpreendente, já que tais métodos de produção de bebidas industrializadas eram empregadas há, pelo menos, três gerações atrás dessa.

Porém, o surpreendente feito da Empresa eram os segredos que envolviam a preparação do Sincáfi, criando em si o mito de algo preparado com técnicas eximias e modernas. Eram feitos a partir do produto da decantação de líquidos extraídos das massas métifas, substâncias essas que possuíam Copyright da Empresa e, assim, não eram divulgados sua origem, e muito menos sua composição, e, obviamente, a fim de manter o patrimônio e preservar os altos investimentos que as métifas tinham em países estrangeiros.

– Não há água.

Repetiu com a mão o movimento do guindaste que desce e, novamente, a emissão de voz fria veio ressoar nas paredes do estreito, porém relativamente alto recinto em que se encontrava.

Juntou as mãos numa espécie de concha em que, pelo fundo, houvesse espaço suficiente para encaixar seu olho esquerdo. Encostou a concha-mão pela fina película de vidro na parte frontal da máquina para tentar ver em qual nível estava o reservatório de água, se é que a máquina que estava lidando fazia parte dos modelos que possuíam esse apetrecho acoplado internamente.

Em vão. E mesmo que tivesse visto, não saberia dizer exatamente se esse era o motivo da falta de água. Seu departamento programava apenas as frases que as máquinas emitiam, e isso não abrangia todas as máquinas, pois cada máquina usava de um artifício diferente para construir frases. Porém, sabia que para uma máquina emitir não há água não era algo exatamente complexo. E se não havia complexidade, julgava não ser algo relacionado ao seu setor que, no caso, tratava-se do setor de Aprendizagem de Máquina. Para um humano, estar em tal setor era um feito notável, mas nada que justificasse o seu sentimento que, de uma forma sútil, fazia-o se sentir superior. Mas, em sua verdade, isso era o melhor que ele podia mostrar para si mesmo para não correr o risco de perder sua posição de comando entre tantas máquinas inteligentes.

Achou que estava a frente de um modelo que, provavelmente, não possuía a capacidade de manipular símbolos, era um mero modelo desprovido de alma lógica, o que denotava uma ligação muito forte com o setor de Programação de Circuítos Lógicos (P.C.L.), o qual sabia muito pouco, apenas o lógico mesmo (quando falta algo na elaboração do Sincáfi, então uma frase deve ser emitida, lembrou-se mentalmente da segunda aula de Introdução a P.C.L I, do qual havia reprovado uma vez antes de concluir os estudos).

Como a máquina não parava de emitir sons e julgava poder tentar resolver processos dos quais não diziam a respeito dos seus conhecimentos, resolveu escoltar a máquina por trás no pequeno vão que havia entre a parede e ela. Obviamente não sabia o que iria fazer caso encontrasse algo que julgasse estar fora dos padrões do funcionamento correto do artefato.

Exatamente acima da máquina, no espaço entre o fim da parede de tijolos e o início do teto que seguiam em azulejos até a claraboia, viu na longa tela de led piscar o código de dezessete dígitos elevado a um outro número sempre múltiplo de sete. Sabia que era a representação numérica e aleatória criada pela máquina que codificava o valor que havia depositado para comprar seu problemático Sincáfi. Na atual situação, gostaria que os leds que sinalizavam esses códigos se apagassem de vez, e não piscassem da forma que faziam, pois isso podia significar tanto que a transação foi aceita quanto anulada. Se anulada (e com sorte), o valor teria grandes chances de voltar como crédito em sua conta previamente reconhecida no momento em que a máquina farejou o recinto com suas luzes.

Após o painel piscar algumas vezes, exatamente nada mais aconteceu enquanto estava ali, quase preso atrás da máquina obsoleta. Nada de dinheiro ou solução. Típico desses modelos mais antigos, essa falta de inteligência em lidar com situações não usuais, pensou. Obviamente, esse travamento indicava que a máquina não soube lidar com as condições “sem água” e “valor transferido”, que, nesse caso, foram saciadas simultaneamente. Com certeza, erro do departamento de P.C.L, pensou novamente.

Numa tentativa um pouco desesperada de sair dali, começou a empurrar a máquina com medo de sujar suas calças demasiadamente agarradas e sintéticas. Não obstante, o medo se intensificara depois de um tempo, mas não por suas calças já estarem bem sujas, mas porque começou a ouvir um barulho vindo do teto. Achou que os aparelhos leds estavam oscilando por demais e, por isso, poderiam estar prestes a queimar. Porém, os números continuavam a rodar infinitamente sem demonstrar que iriam parar em algum momento.

Mas, na melhor das hipóteses, e levando em consideração sua atual situação, nunca poderia imaginar que alguém poderia vim salvar-lhe, embora salvar não seria algo a dizer para alguém que está preso atrás de uma máquina de café.

Mas é claro que a polícia não mede esforços e discriminação de situação, pensou, e tomara que enviem humanos.

Não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas após os pequenos barulhos que oscilavam ao passar do tempo, a claraboia começou a se romper e pequenos pedaços de vidros começaram a cair do teto. De repente, a Claraboia se rompeu totalmente levando a uma avalanche de estilhaços que ofuscaram a descida triunfal do que ele julgava ser a polícia.

Apesar do exagero da situação, começou a sentir-se seguro novamente. Lembrou-se da confusão dos haldracianos no ano anterior que queriam suprir a força policial nas áreas mais baixa da cidade. Se não fosse pela polícia, imagina, iria ficar preso aqui, limitou-se a pensar.

Não se importou muito com a quantidade, embora pareciam ser um grupo de três ou quatro polícias. Se importou, sim, em logo perceber que usavam roupas pretas, cumpridas e pesadas. E isso, infelizmente, não demonstrava uniformidade com os aspectos gerais exaustivamente lembrado pelas propagandas do departamento de polícia local exibidos nos mesmos holofilmes que vendiam Sincáfi.

E, em sua opinião, tais roupas também lhe pareciam antiquadas. Caramba, cadê a polícia? Talvez sejam aqueles malditos haldracianos da ala norte, sempre tão baderneiros, lembrando novamente os haldracianos, como se não pudesse esquecê-los, mas não sabia o por quê. Se alguém me ouvisse dizendo isso e não me conhecesse, poderia pensar que eu não gosto desse povo!, embora isso claramente não era evidente mesmo para aqueles que o conheciam.

Observando-os para poder identificá-los, percebeu que parecia haver alguns armamentos ao lado de seus vestuários. São haldracianos mesmo! Eu sabia! Mas haldracianos, ao contrário do que ele sabia, eram pacíficos e não portavam armas.

Essa verdade que ele não conhecia poderia ter evitado a sensação estranha que começava-lhe a brotar. Sentia-se gélido sob o aspecto de um sentimento que crescia gradativamente desafiando os limites da física, como se sua alma, ou algo que o valesse, estivesse escorrendo por finos canos que atravessavam seu corpo, desembocando em um ralo localizado exatamente na parte frontal de seu crânio. – Vão me matar! – O ralo parecia estar entupido, pois começou-lhe a acumular sólidas sensações que lhe estimularam um estado de pânico fazendo-o emitir excessivos gritos que algum dia poderia acreditar sair de si completamente capazes de competir em altura e cadência com os dizeres da máquina ressoados pelas paredes, mas que agora eram facilmente escoados pelo recém buraco do teto que, em seu estado atual, parecia mais uma boca com dentes cortantes.

– Fique quieto. Isso é para seu bem.

Embora não fosse a polícia, ele foi “salvo” de trás da máquina. Deu dois tapas com sua mão direita em sua perna esquerda para tirar os vincos que o estresse da situação causou em sua calça sintética. Fingiu que estava ajeitando o óculos na cara, mas iria acionar a polícia verdadeira através do botão planificado na junção de uma das hastes.

– Por favor, não ligue para a polícia. Seremos rápidos.

Eles querem água, pensou ele. Não tanto quanto cidadão, mas mais como funcionário da Empresa, o roubo da água lhe causaria diretas consequências. Sobre esse prisma, resolveu clamar:

– Vocês, haldracianos, sempre vivendo nas custas dos que trabalham. A cidade continuará essa lástima enquanto vocês existirem. – Disse, se enchendo de um sentimento de justiça que era capaz de extinguir a dúvida daqueles que não o conheciam sobre se ele gostava ou não dos haldracianos.

– Não somos haldracianos. E isso também não é água. Na verdade isso é pura – deu uma pausa, mas exclamou – merda! Sua merda, quero dizer.


A tal da palavra merda, exalada com tanta veemência, penetrou-lhe em seus pensamentos de tal maneira que a física que, anteriormente lhe proporcionara pânico, tornou a ser regida pelas leis conhecidas, mas com um leve desvio para seus punhos cerrados.

– Eu sei, eu sei, sou louco. A Empresa nunca poderia fazer isso com a gente. OK, eu sei. Mas você tem que concordar comigo que alguns anos atrás isso poderia parecer verdade quando encontraram DNA haldracianos em alguns frascos de Amali. E isso já foi discutido por todo a cidade mas, no final das contas, quem ainda toma aquele lixo, não é mesmo? Ou, Além de tudo, quem se importa com os haldracianos.

– Idiota – ignorou a parte relatada dos haldracianos, porque não havia porque reafirmar o óbvio – Caso não saiba, trabalho no departamento de Aprendizado de Máquinas dessa empresa a qual você se dirige. Além disso, convivo com a alta cúpula da Empresa. Você acha que eles tomariam… merda? – pausou e abafou um pequeno riso – Apesar de eu já ter reclamado, ainda temos máquinas como essas disponibilizadas gratuitamente para os funcionários. Ou acha que vendemos algo que não compramos? Ou, como você está falando, acha que lá na Empresa bebemos… – pausou, isso não era muito comum no seu vocabulário – merda?

– Todos nós bebemos merda, de uma forma ou de outra. Mas não estamos conscientes disso. Ou você acha que as tais das massas métifas são o que? Um lindo produto criado a partir de muitos estudos pelos maiores cientistas do mundo? Bem, a Empresa quis que fosse assim, mas, perguntou-lhe: você acredita nisso? Mesmo? Você sabe como são os processos?

– Isso não é sobre o meu departamento.

– É sobre isso que estou falando.

Ele pensou que infeliz momento foi aquele em que quis descer um tanto a mais da rua para chegar a esse lugar, e ainda ter que viver, mesmo que poucos momentos, com essa infeliz criatura que, diga-se de passagem, falavam estranhamente da mesma forma que vestia-se.

Suas lógicas interpretações foram interrompidas por pequenos e esparramados barulhos de vidros sendo quebrados. Já ouvira antes, mas dessa vez, não vinha do teto. Ainda, não podia identificar se a quantidade de estilhaços de vidros no chão eram todos provenientes dos vitrais quebrados da claraboia. Eram incontáveis pedacinhos e, quando olhou-os no chão, seus formatos irregulares refletiam seu corpo deformado e alteravam a cor de suas calças. Não gostou do que viu.

Voltou o olhar para a infeliz criatura e, por esse caminho de volta, mediu um de seus comparsas com as lentes de juízo lógico e percebeu que esse possuía um instrumento muito rudimentar e grande, parecido com um T, em que na parte oposta designada para carregá-lo constitui-se de um material muitíssimo rígido.

Com certa destreza, batiam com esse instrumento na parte frontal da máquina. Teve uma vaga lembrança de ter lido em suas aulas obrigatórias de Antropologia dos Seres Humanos o relato de seres humanos muito primitivos que usavam de tal técnica para conseguir comida, abrigo ou mesmo batalhar com outros seres humanos, mas não conseguia lembrar o nome do tal instrumento usado em tais práticas.

– Caso não saiba, isso é uma marreta. – mais um objeto estranho para compor o indivíduo estranho, pensou ele. – Ainda temos algumas dessas guardadas conosco dentre outros artefatos que você ficaria surpreso em descobrir que não são regularizado por códigos.

– Parem de fazer isso! Caso o contrário, irão quebrar a máquina!

– Mas queremos exatamente isso, o contrário do seu contrário!

Sua lógica era boa o suficiente para não pestanejar e responder:

– Mas para que querem isso?

– Queremos te libertar!

– Me libertar? – agora sua lógica não parecia funcionar tão bem – do quê?

– da máquina!

Pois que, mesmo antes de raciocinar a resposta, a verdadeira polícia chegou pelo buraco dos vitrais. Tão triunfal quanto a chegada dos primeiros visitantes, mas obviamente não usavam artefatos “analógicos” como as tais marretas; modernos jetpacks e armamento acionados pela mesma enginner das cafeteiras estavam em melhor conformidade com a polícia que ele esperava.

Se sentiu seguro quando viu que eles não tinham a menor chance com a tecnologia da polícia. No entanto, alguns deles conseguiram escapar. Atiraram algumas esferas que explodiam, mas em vão, pois não conseguiram detê-los. Eles vão ver quando as esferas de dispersão equipadas com campo de distorção ficarem prontas, pensou.

Após toda a bagunça ser limpa, ele pôde, enfim, limpar-se adequadamente. Que noite!, pensou. Obviamente não disse isso pelo fato de ainda fazer uma bela noite lá fora, mas, de qualquer forma, olhou para cima e percebeu que a luz mudava de cor quando passava pelos cacos dos vitrais presos no perímetro da claraboia quebrada.

 

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