Atualizando, não desligue, conto de Bruno Eleres

Atualizando, não desligue

 

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– Você não devia fazer isso.

Alexandre fechou os olhos. Não queria enfrentar a mesma discussão. Sabia que o marido o achava perfeito da maneira como era, sabia que sua carreira estava seguindo um bom caminho, mas ele ambicionava além.

– Não precisa de nada disso pra ser um bom cirurgião, Alê. Você já é um! Todo mundo no hospital acha isso.

Respirou fundo. Não conseguiria escapar. Quando Cléber iniciava uma discussão, apenas dois caminhos eram possíveis: ouvir as divagações e afirmações até que todos os fatos estivessem na mesa, formando um mapa inquestionável; ou entrar na discussão, que em poucos minutos pareceria um debate político.

– Por favor, Cléber… Já conversamos sobre isso.

– Não, Alexandre. Você falou e eu tive que aceitar.

– Você falou pra caralho! Mas não me convenceu. Eu quero fazer isso. Preciso.

– Você precisa de ar, água, comida. O resto é da tua cabeça.

– Eu não nasci pra ser qualquer um, Cléber. Eu sou um bom médico, eu sei disso, mas tem muitos bons médicos por aí. Todo hospital tem um, dois, até três – as pequenas estrelas locais. Mas eu nasci pra ser maior do que isso, eu sei que nasci. E isso vai me dar o boost que preciso, cara.

– E se te mudar mais do que você espera?

Fechou os olhos novamente.

E se?

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A cirurgia foi em casa. O porão foi montado com esmero pela equipe médica, selecionada a dedo por Alexandre, e ele mesmo vistoriou o local antes do procedimento.

Cléber se recusou a fazer parte daquilo. Na noite anterior, arrumou as malas e Terêncio, o gato do casal, e foi para a casa dos pais no interior do Rio. Alexandre observou a partida do Subaru através da grande janela da sala, coração apertado, e voltou para a mesa, onde assinou um cheque gordo e entregou para um homem de paletó no sofá.

Quando os últimos detalhes do acordo foram fechados, Alexandre acompanhou o negociante até a porta e apertou sua mão. Voltou para o quarto e se jogou na cama de casal e chorou por horas a ausência de Cléber. Ele não sabia, mas na manhã seguinte, Cléber voltaria, arrependido. Não chegaria a tempo de lhe dar um beijo na testa e de desejar boa sorte, mas estaria a tempo da primeira incisão. Sentiria o suco gástrico tatear o caminho pelo esôfago e os olhos marejarem, e não sairia mais do lado do marido.

Olharia para o cirurgião, um desconhecido com pouco mais de trinta anos. Cléber acompanharia seus movimentos, um por um, nas quatro horas de cirurgia. A certeza nos olhos do médico não o acalmariam por um segundo sequer. Seus olhos se moveriam freneticamente entre o rosto do médico, o rosto coberto de Alexandre e as máquinas que auxiliavam a operação.

Quando, enfim, o desconhecido levantasse a placa de silício com a aparência e tamanho de um microchip de celular, Cléber prenderia a respiração. Voltaria a inspirar apenas quando o chip sumisse do seu campo de visão. Sentiria, então, como se os filhos de um futuro imaginado fossem condenados a não serem mais do que sonho, e choraria baixinho no canto escuro da sala de cirurgia improvisada.

Mas Alexandre, ao menos o Alexandre que Cléber amava, jamais saberia de nada disso.

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Já se passara um dia inteiro desde que a cirurgia terminara e Cléber não saíra do lado da cama de casal, mas também não ousara invadir o leito do parceiro enquanto ele estivesse adormecido. Arrastara a poltrona e passara a noite ali, relendo trechos de Une saison en enfer, na língua original, pois na segunda-feira discutiria sobre Rimbaud com seus alunos da pós-graduação. Receios, preocupações e a potente droga literária corriam-lhe pelas veias.

Sonhos se misturavam durante o sono inquieto. Cléber se remexia na poltrona e o pescoço pendia, acordando-o por um milésimo de segundo e lhe permitindo uma visão rápida da cama de casal onde Alexandre repousava, e então era dragado de volta ao mundo onírico.

Era a noite após o casamento, e Alexandre estava em seu colo. Dois tolos apaixonados. Cléber acariciava a cabeça do marido em seu colo, a lua de mel entranhando-se no carinho cansado que trocavam. Alexandre ainda dormia sobre a cama. Puxou Alexandre para sentar em suas coxas e disse que o amava, que o amaria para todo o sempre. Beijou-lhe a bochecha e a boca, mordiscou seu queixo, mas o achou amargo como nunca antes. Levantou-se de supetão, fazendo com que o marido recuasse. O cabelo raspado deixava à mostra os pontos que a cirurgia exigira. Já não era Alexandre em pé no quarto – parecia uma versão feita aos trancos e barrancos, feições frias que o encaravam como se ele não fosse mais do que uma parede. Agora tenho tudo, tudo que sempre quis, exclamou a voz robótica. Alexandre estava sentado na cama, observando-o. Agora não tem mais limites para o que posso fazer, agora

Cléber arregalou os olhos.

– Desculpe. Não quis te acordar – a voz de Alexandre saiu fraca e um sorriso se formou em sua boca. – Sempre amei ver você dormindo, você fica lindo.

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Os meses que se seguiram foram gloriosos para Alexandre. Ele saiu no jornal pelo menos vinte vezes em menos de seis meses devido à cirurgia bem-sucedida que fizera na vice-presidente e por causa dos avanços significativos em sua pesquisa sobre reabilitação sensorial com o uso de células-tronco. Recebeu dezenas de pedidos para que palestrasse em universidades Brasil afora e duas grandes empresas lhe ofereceram patrocínio. O sorriso branco e aberto de Alexandre era figura corrente em sites de fofoca, sempre acompanhado do seu companheiro, como insistiam em chamar o marido legalmente atrelado ao médico.

O sorriso de Cléber era contido, e ser contido não era uma característica que ele dominava ou apreciava. Era o tipo de gente que tinha plena certeza que existir como um excluído era um ato político e que, quanto mais alto gritasse, mais as pessoas lhe ouviriam – reagindo da maneira que reagissem. Mas nunca enfrentara situação como aquela.

Os meses de glória de Alexandre lhe levaram em uma viagem passando por emoções que já conhecia até ilhas sentimentais mais distantes, das quais nunca pensara com propriedade. O receio inicial era o barco zarpando, deixando-o na insegurança de que teria chão logo a frente – que já conhecia muito bem, por sinal, pois passara anos se perguntando o que aconteceria se saísse com a calça skinny, com o cabelo pintado, de mãos dadas com o namorado. Nunca sabia se a próxima esquina quebraria uma lâmpada em sua cabeça ou se uma horda de zumbis evangelizados por dois milênios de expressão – opressão? – cultural o cercariam e arrancariam seu fígado.

Foi apenas o início. Aos poucos, viu Alexandre afundar no trabalho. Passava as noites acordado lendo artigos científicos, livros, até que uma noite chegou da universidade e encontrou a casa vazia. Chamou o nome do marido por toda a casa e começou a ligar para os telefones que tinha – um barulho o interrompeu. Seguiu os ruídos até o porão, descendo os degraus devagar por temer o que esperava no final da escada.

Encontrou Alexandre debruçado sobre a maca abandonada após a cirurgia.

– Alê, o que você tá fazendo aqui?

Aproximou-se e, com horror, viu o marido debruçado sobre um gato com os órgãos expostos e o crânio aberto.

– Alexandre! Pelo amor de Deus! O que você tá fazendo?! – Puxou o braço do marido com violência, lágrimas surgindo em seus olhos ao mesmo tempo em que o estômago embrulhava.

Alexandre o empurrou, derrubando-o no chão.

– Shhh! Preciso colher essa amostra.

E voltou a se curvar sobre Terêncio, agora o gato morto do casal. Alexandre ficou estatelado no chão, sem saber o que fazer. Arrastou-se para fora do porão, quase sem forças, até o banheiro, onde afundou o jantar no vaso sanitário.

Merda. Merda. Merda. O que tá acontecendo? Eu disse que não era pra ele fazer aquilo. Eu disse, eu juro que disse. Repetia para si mesmo, esfregando-se sob o chuveiro por mais de uma hora até que a pele, tomada pela vermelhidão, estivesse ardendo tanto que nem a água gelada servia de unguento. De noite, saiu da cama assim que Alexandre chegou. Não queria dormir na mesma casa que Alexandre. Não queria estar mais perto dele. Não suportava a ideia de sequer tocá-lo. Mas também não poderia o abandonar.

Jogou-se no sofá, enrolando no cobertor velho que salvara da infância e que o escondia dos monstros. O sono não veio fácil – sonhou acordado, variando de estados de vigília a cochilos de menos de cinco minutos

Iria procurar os homens com quem o marido negociara. Certamente, algo tinha dado absurdamente errado. Porém, tinha que estar vivo para ir atrás do expurgo do chip do cérebro de Alexandre. Imaginou-se em uma jornada atrás de um padre que realizaria um ritual macabro de exorcismo nanotecnológico. Não posso dormir, não posso dormir, não posso dormir.

Afinal, camuflagem poderia bem funcionar para o bicho-papão, mas Alexandre não seria enganado tão facilmente.

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Sentiu as narinas queimarem e perdeu o ar. Acordou. Alexandre se afastava dele, carregando algo em sua mão. Cléber encheu e desencheu os pulmões freneticamente, tentando recobrar oxigênio e as faculdades mentais. Tentou se levantar, mas cordas apertavam seu pulso e suas pernas.

– A-Alexandre, o que tá acontecendo?

Era estranho falar amarrado em uma maca, semiconsciente de que logo seguiria por um destino horrível. O sentimento de impotência o tomava, como da primeira vez que ficara tão chapado que não conseguia nem se levantar da grama de trás do Centro Acadêmico, mas mais aterrorizante, porque agora tinha plena ciência da sua fraqueza.

Cléber levantou a cabeça o quanto pode. O marido mexia em uma bandeja sobre o balcão lateral. Duas pessoas, os mesmos que estavam auxiliando o médico desconhecido na cirurgia de Alexandre, estavam paradas ao lado do balcão. A mulher, Heloísa, sorria debilmente.

– Eu sei que você foi atrás dele, amor. Sei que você pediu que tirassem o chip de mim, ofereceu nossas economias para que tirassem todas as minhas habilidades, todo o conhecimento que me pertence agora.

Sua voz saía monótona, como se ele estivesse jogando papo fora com o ascensorista do hospital onde trabalhava. Bom dia, Carlos, como está?

– Amor, por favor, me tira daqui…

– Não se preocupe. Vai ficar tudo bem, Cléber.

– ME TIREM DAQUI! – Esperneou, mas as cordas machucaram sua pele. Heloísa, os cabelos ainda crescendo sobre os pontos da própria cirurgia, manteve o sorriso no rosto.

– Semana que vem, você será a estrela do Centro de Letras. Cléber Duarte. Já imaginou? E isso me custou muito caro, querido, então não seja ingrato.

Alexandre acenou com a cabeça para os dois companheiros, que se aproximaram de Cléber. Heloísa injetou algo no soro e o sono dos drogados arrastou Cléber em sua direção. Por alguns segundos, ele balbuciou palavras soltas. Solta. Terêncio. Amar.

Próximo da maca onde faria a cirurgia, Alexandre retirou com cuidado o chip de uma embalagem japonesa e o colocou em um vasilhame com soro. Nele, os circuitos se dispunham como um muro nunca rebocado, carregando informações de milhares de livros, artigos e vídeos, conclusões lógicas e tudo mais o que tornaria Cléber em um gênio da Literatura.

Dois circuitos paralelos e isolados do centro, traziam informações diferentes especiais. O primeiro, faria com que Cléber fosse o marido ideal e um bom cidadão, adequado para a pesquisa que a empresa vinha executando.

O segundo circuito lhe traria outras habilidades. Afinal, Alexandre sempre quis um parceiro para jogar tênis.

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