Como os próprios deuses, conto de Frederico Toscano

Como os próprios deuses

A barragem de plasma risca o céu como unhas alaranjadas, descrevendo arcos sinuosos que iluminam as nuvens e criam pequenas estrelas que caem para cima. Para baixo caímos eu e meus companheiros de pelotão, desviando-nos dos ataques com a experiência que cultivamos e as habilidades que nos foram dadas pelos deuses. Falhar seria um insulto a eles, portanto, de forma que redobro os meus esforços em permanecer viva. Há ainda tanta morte a semear no planeta abaixo de nós. Há morte no firmamento também, e lamento a passagem dos meus companheiros, atingidos pelos disparos e queimando tão rapidamente que é como se jamais houvessem existido. Estão além da ajuda dos deuses agora, mas não das minhas orações, conquanto inúteis possam ser. Já é possível vislumbrar os detalhes da cidade aos meus pés agora, o visor marcando os pontos de interesse, criando um mapa virtual da destruição que causaremos assim que tocarmos o solo. A perspectiva de cumprir meu dever e me aproximar da divindade faz com que a adrenalina jorre pelas minhas veias, sendo imediatamente colhida pelo traje, para ser utilizada em alguma outra ocasião. No momento, preciso ser o frio que há no vácuo entre as estrelas. Continuamos caindo, todos aqueles que restaram, e os nossos alvos já estão ao alcance de nossas armas. Isso é bom, pois chegou a hora de espalhar a Palavra entre as pessoas que nos aguardam na superfície. E a primeira delas é Luz. As bombas que lançamos criam pequenas esferas cintilantes, pouco maiores do que um edifício de quarenta andares, que nulificam tudo aquilo que tocam. Descarregamos todas elas enquanto ainda estamos em queda, criando pequenos e efêmeros sóis que se apagam junto com as vidas daqueles que nos aguardam, incapazes de deter nossa chegada com suas explosões magnéticas e sem a benção divina. A alegria de pregar preenche o meu espírito e autorizo o meu pelotão a divulgar a Palavra seguinte, Dor. Apontamos os morteiros para a população civil que ainda resta, as granadas programadas para atingir um alvo específico da demografia local. A munição viaja muitas vezes mais velozmente do que nós mesmos, e quando se choca contra o solo, libera os nanocaçadores, à procura dos mais jovens entre os inimigos. Em poucos instantes, todas as crianças dali estão mortas, e os uivos de dor dos adultos são a canção que embalam as preces que murmuro aos deuses, pedindo que não se esqueçam daquelas pequenas almas, mesmo sabendo que irão fazê-lo. Não preciso estar entre eles para saber que seu espírito de combate levou um golpe do qual já não pode mais se recuperar. Mas há sempre aqueles que persistem, enlouquecidos pelo sofrimento, combustível de uma resistência fraca, porém inconveniente. Para estes, eu reservo o Medo.

Descemos por entre os estranhos arranha-céus, espirais de formatos estranhos e ângulos absurdos, para finalmente desacelerarmos a nossa queda com um colchão sonoro, uma pequena explosão que nos permite tocar o chão ilesos, apoiando-nos em mãos e joelhos, como convém aos humildes. Eu e meu pelotão estamos em uma das avenidas da capital agora, carcaças de veículos destroçados pontilhando a paisagem, ladeados pelos corpos carbonizados de soldados. Das janelas dos edifícios próximos, os disparos são como chuva tamborilando em nossa couraça, retinindo como sinos de metal enquanto respondemos ao fogo inimigo. O Medo já está em seus corações, mas muitos ainda não o abraçaram, resistindo inutilmente enquanto mais de nós caem do céu sobre o seu mundo condenado. Isso vai mudar. Entrando em modo de ascensão, realizo o voo curto que o traje me permite, indo até uma das janelas altas e arrancando, com as minhas próprias mãos, um dos defensores, para levá-lo gritando e debatendo-se para o centro do círculo de fogo formado pelos meus comandados. Por um instante infinitesimal, eu hesito, olhando para o meu cativo. É humanoide, como sabíamos que seriam, caminhando ereto sobre um conjunto de quatro membros robustos, coberto com uniforme de combate, assim como os seus companheiros. Os grandes olhos escuros, de pupilas fendidas e horizontais, refletem o terror que ele está sentindo naquele momento. Ele sabe o que o aguarda. Eles ouviram as histórias. Mas agora vão descobrir que nenhuma delas é mais horrenda do que a realidade. Eu pouso uma das mãos sobre a sua cabeça alongada e inicio a Purificação. Da manopla parte o probóscide mecânico que se aferra à sua pele alaranjada. É nesse momento que o fogo passa a correr por suas veias e artérias, e seus olhos vislumbram, em seus momentos finais, as faces dos deuses para os quais eles deveriam ter se curvado há muito tempo. Nesse momento, eu quase desejo estar em seu lugar. A agonia não pode ser descrita, mas todos podem ver enquanto a criatura se desfaz aos poucos, o sangue em ebulição e a pele borbulhando negra, enquanto emprego toda a minha habilidade para que ele permaneça vivo o máximo possível, alongando o seu sofrimento e ampliando-o. Quando seus restos se desfazem sob a minha palma aberta, é a vez dos meus soldados repetirem o meu gesto, arrancando os inimigos de suas trincheiras e imolando-os um a um. Não demora muito para que se rendam. Os sobreviventes serão devidamente catequizados, em tempo. Com os céus livres, as naves começam a descer, trazendo mais e mais soldados, guerreiros de incontáveis raças, entre eles humanos, como eu. É hora de varrer as ruínas e aniquilar qualquer resistência isolada que possa ainda restar.

Mando meu pelotão se espalhar para cobrir o máximo de terreno no menor tempo possível, eu mesma seguindo solitária para uma ruína próxima. Vasculho os cômodos, observando os remanescentes de uma cultura pagã que logo seria extinta, com a graça dos deuses, quando percebo um ruído semelhante a um choro infantil. Talvez a Palavra não houvesse chegado igualmente a todos os jovens, afinal. Prossigo passo a passo pelos móveis destroçados, até deter-me em frente a uma porta, talvez de uma despensa antiquada. Empurro-a devagar e vejo uma criança abraçada à outra, um pouco mais velha, membros retorcidos no espasmo final de dor antes da vida deixar o seu corpo. Sorrio ao pensar na boa fortuna daquele pequeno ser em sobreviver a tamanha devastação e ter a chance, ainda tão novo, de conhecer a glória da catequese e o serviço aos verdadeiros deuses. Desativo as minhas armas e estendo uma mão coberta de metal em sua direção. O pequeno olha para cima e retira um objeto do corpo inerte em seus braços. Ele grita antes de acionar a bomba e eu mal tenho tempo de erguer meus braços em proteção antes de tudo se tornar escuridão.

 

***

 

Nos meus sonhos, os deuses acabaram de chegar à Terra, embora isso tenha acontecido há séculos, na verdade. Suas naves incontáveis, tão imensas que lançam sombras sobre cidades inteiras, pairam nos céus de diversos países diferentes, em uma época na qual conceitos assim ainda fazem sentido. “Alienígenas” e “invasores”, gritam alguns, “mestres” e “salvadores”, sussurram outros, mais sensatos, quando os emissários robóticos se espalham entre as maiores capitais daquele mundo que eu jamais conheci, mas que visito com frequência durante o sono. Há medo, incredulidade e, por fim, um ódio imenso por aqueles enviados cromados, que passam a perambular pelas ruas, espalhando a sua mensagem. “Ouçam a Palavra”, dizem eles, tendo aprendido a falar com vozes humanas e em todas as línguas e dialetos existentes naqueles tempos. “Ouçam a palavra de Paz daqueles que nos controlam. Sejam como eles. Sejam deuses”. Em pouco tempo, um entendimento e uma harmonia jamais vista anteriormente naquele planeta se apossa de suas lideranças, que passam a trabalhar juntos por um objetivo secreto. E assim, a tola humanidade se ergue contra os deuses, declarando uma guerra que não duraria mais do que algumas poucas horas. Quando o primeiro emissário é destruído, os deuses decidem por bem castigar o seu rebanho, enviando seus evangelistas para o solo. Das naves caem os soldados, seres tão diferentes dos humanos quanto diversos entre si, centenas de raças distintas, originários de milhares de sistemas estelares que tiveram a graça de ser apaziguados há muito tempo. Como estrelas cadentes eles descem sobre as cidades, arrasando estruturas e matando indiscriminadamente, pois todos são iguais sob os olhos dos deuses. Os exércitos dos homens são dizimados, mas também são os civis, os políticos, os ricos, os pobres, as crianças, os velhos, os descrentes e os fiéis de todas as outras falsas divindades. As montanhas de cadáveres são catedrais erguidas à palavra que se espalha como fogo sobre o capim seco, e a palavra é Purificação. Quando a humanidade se torna apenas uma fração do que um dia havia sido e todos os seus orgulhosos monumentos são levados ao chão, é hora de se ajoelhar e aceitar a conversão. No momento em que ela acontece, os guerreiros que pouco tempo antes incendiavam nações inteiras e destroçavam recém-nascidos ainda no seio de suas mães passam a acolher os seres humanos como irmãos, abraçando-os com seus trajes metálicos e sussurrando boas-vindas aos que permanecem vivos. “Vocês agora são como nós. E um dia, seremos todos como eles. Como os próprios deuses”, eles afirmam, e há alegria verdadeira em suas vozes, guinchos inarticulados instantaneamente inteligíveis a todos que escutam. E assim, a raça humana torna-se mais uma em um panteão de muitas outras, todas dedicadas a lançarem-se por entre as estrelas, com o intuito de espalhar a palavra e em busca da própria divindade.

Eu desperto, uma entre muitos, hóspede em uma das inúmeras enfermarias que velam pelos remanescentes destroçados dos evangelistas que sobreviveram à queda daquele dia. A queda que eu havia liderado. Os iátricos passam entre os corpos alquebrados, salvando os que podem, prestando a misericórdia final para aqueles que se encontram além das suas artes. Sei que vou viver, e se choro é pelos meus comandados, tantos e tantos que caíram sob as minhas ordens, homens e mulheres que, agora, jamais terão a chance de se tornar deuses, como um dia eu serei. Ignoro a dor ao examinar meu próprio corpo, observando as cicatrizes que competem por espaço ao lado dos retalhos de carne enegrecida e carbonizada. Conhecimentos médicos de incontáveis mundos, administrados pelos emissários robóticos, hão de garantir que eu viva para lutar mais um dia. Mas meu olhar foge do espelho.

 

***

 

Mais um planeta, mais uma queda, e eu sinto o vento passando por entre os meus braços abertos, como se a qualquer momento eles pudessem se transformar em asas e me levar para longe dali. Talvez, quando me tornar uma deusa, eu ganhe apêndices alados, como as antigas figuras da mitologia terrestre, espadas chamejantes em mãos e uma ferocidade serena em seus rostos marmóreos. Porque ninguém jamais viu a face dos deuses, apenas a forma metálica dos seus arautos, não é difícil permitir que a imaginação preencha as lacunas. Meu sargento, cuja raça simbiótica se compõe de seres formados por três ou mais indivíduos em um amálgama de membros, órgãos e mentes, sonha a divindade como um abraço imensurável, unindo seres vivos como células em um corpo infinito. Um êxtase pleno e coletivo, ao qual ele aspira do fundo de cada uma das suas almas. Eu, que possuo apenas uma, cuido para continuar viva até o dia em que seja chamada para me juntar à divindade. Desvio-me das explosões atmosféricas, com seus remoinhos elétricos e azulados, lamentando o desperdício de vidas que aquela resistência acarretaria. Todos resistem, para em seguida cair de joelhos e juntarem-se a nós. Onde há dominação, há resistência, mas que sentido há em combater os mensageiros dos deuses e portadores de suas boas novas? Aeronaves se aproximam agora, com asas circulares e móveis, cabines como bolhas de sabão protegendo seus ocupantes com finas membranas, mais resistentes do que o mais forte metal terrestre. Eu aterrisso sobre uma delas e rasgo o invólucro com as minhas próprias mãos, despedaçando os pilotos enquanto a estranha máquina viva rodopia sem controle até se chocar com uma companheira, ambas caindo com um guinchar quase humano. Salto para outra aeronave e mais outra, destruindo e matando, enquanto meus guerreiros me imitam alegremente, e o céu se torna um mar de fogo e gritos, acalentando meu coração. Quando tocamos o solo, a carnificina se inicia verdadeiramente, e espalhamos as palavras dos deuses com uma fúria que espanta até a mim mesma. Me recordo da explosão, que destroçou o meu corpo e custou-me uma perna e um braço, substituindo-os por cópias mecânicas que mais se assemelham a extensões do traje de batalha. Não importa. Os apêndices falsos me servem bem enquanto eu desmembro meus inimigos, a pele metálica coberta de sangue e vísceras de cores e formatos estranhos. Em pouco tempo, a vitória pertence aos deuses, e me regozijo por trazer a verdade para bilhões e bilhões de criaturas, que em breve serão acolhidas no seio da fé genuína. Mas dentro de mim reside a verdadeira felicidade, por saber que estou mais e mais perto dos deuses, e que compartilharei dos seus mistérios e segredos como uma igual. Mas não hoje. Hoje há um mundo para ser pacificado e mortos a serem enterrados. Entre as crateras empretecidas e esqueletos de edifícios em frangalhos, eu caminho em meio os corpos, ignorando os berros de agonia e os meus próprios ferimentos, até que as trevas se abatem sobre mim mais uma vez.

 

***

 

Me chamam Micaela, o anjo da morte, por semeá-la entre os pagãos, sim, mas também por enganá-la, batalha após batalha, fazendo-a perseguir-me inutilmente pelos campos destruídos pelas chamas da guerra. Os sussurros são quase reverentes à minha passagem, e é bom que seja assim, pois a adoração é reservada apenas para os deuses, não para os seus asseclas mortais. Ainda não chegou o momento de se curvarem ante a mim, portanto, que permaneçam de pé ao meu lado em mais uma queda, meus soldados, meus evangelistas, meus irmãos e irmãs de armas, cada um deles soberbo em seus trajes de batalha marcados pelas cicatrizes de incontáveis batalhas. Ali, um novato torcendo e retorcendo nervosamente seus tentáculos fluorescentes. Acolá, nosso enfermeiro de combate curva a sua carapaça quitinosa e espinhenta para erguer as antenas a um céu metafórico e louvar uma última vez antes da luta. Aqui, um soldado humano, como eu, porém íntegro, tão poucas cicatrizes cruzando a pele escura que mais parece uma criança. Ele me olha com um misto de apreensão respeitosa e temor saudável, mas há algo mais. Poderia ele nutrir desejo por esse corpo destroçado que vê diante de si? Hoje, sinto que sou mais traje do que mulher, o metal preenchendo os espaços que foram apagados pelas feridas dos combates. Um braço, uma mão, uma perna, os elos delicados da coluna vertebral, ambos os pulmões, metade do meu rosto. Meu ventre. Agora e até que o fim chegue, a única vida que posso oferecer aos deuses é a minha própria. Se não fosse pecado, eu quase pensaria que é melhor assim. Dentro do corredor de lançamento da nave, os emissários robóticos perambulam para cá e para lá, tudo vigiando e registrando. O rapaz me olha e penso que podemos dar prazer um ao outro, pelo tempo que os deuses desejarem e permitirem. Decido que é o que faremos, se sobrevivermos à próxima queda. A nave rompe a atmosfera e os pilotos iniciam a contagem regressiva. Ponho meus comandados em ordem e observo, através dos monitores, as águas revoltas do infindável oceano sob os nossos pés, repleto de vida, insubmissa, pronta para virar suas armas contra nós e nossas palavras e lutar para preservar sua cultura, sua história, suas próprias verdades. Eu até sentiria pena deles, se não fosse pecado.

 

***

 

Eu tenho Elísio entre as minhas pernas mais uma vez, cavalgando-o até o êxtase que aos mortais é permitido sentir, uma sombra pálida do arrebatamento que os deuses experimentam entre si. Seu corpo tem me consolado nos últimos tempos, mas suas palavras me perturbam cada vez mais. Em duas ocasiões anteriores, comentou abertamente sobre a razão de ser da nossa cruzada, implicando dúvidas sobre a validade dos seus objetivos. “Por que os deuses precisam de nós para lutar e morrer em seu nome, afinal? ”, ele questiona agora, a cabeça apoiada em minha perna verdadeira. Como é possível que ele não compreenda a santidade da missão que nos foi confiada? Os deuses não precisam de nós, mas o contrário. Sem eles, não teríamos propósito ou perspectiva, e seríamos pouco mais do que feras a rondar pelas estrelas, caminhando inutilmente para uma morte sem sentido. Os deuses nos presentearam com o maior de todos os dons, o de almejar. Por isso, agradeço todos os dias pela sua chegada à velha Terra de séculos atrás. Elísio faz menção de contrapor minhas palavras, mas eu o tomo em meus braços, o beijo e o acalmo, passando meus dedos pelos cabelos encaracolados e acariciando-os até que a sua respiração compassada denuncie o seu sono exausto. Nessa mesma noite, denunciei-o pelo crime de blasfêmia. Posso ver o horror em seus olhos quando seus colegas de pelotão, sob minhas ordens, o entregam aos emissários para que enfrente a punição pelo hediondo crime. Como sua oficial superior, eu levo adiante a sentença, forçando-o a ajoelhar-se perante todos os soldados no púlpito do julgamento. Faço com que o seu delito seja conhecido por todos e percebo as expressões de dor e desapontamento em cada um dos combatentes ao tomarem ciência daquela vergonha. Há uma mancha no batalhão e sua honra precisa ser lavada. Ao fim do processo, pergunto a Elísio se ele se arrepende do terrível pecado de pensar livremente. Aguardo uma explosão de ódio de seus olhos e sua boca, mas ele apenas volta-se em minha direção, estranhamente sereno após o choque inicial do julgamento. “Arrependo-me somente de ter dedicado, por tanto tempo, meu amor a deuses cruéis e frios, sem face e nem coração, quando havia quem precisasse mais dele”. Eu movo a cabeça em assentimento, sem nada falar, e pouso uma mão trêmula sobre a sua cabeça. O probóscide se agarra ao seu rosto e o seu uivo de dor reverbera pela nave e pelo meu coração. O que resta do seu corpo desaba pateticamente aos meus pés e meus comandados comemoram estrondosamente a morte do traidor, sua fé fortalecida pela justiça divina aplicada ante os seus olhos. Digo a mim mesma que ele viu, antes de morrer, a face dos deuses que havia renegado em meus braços. Rogo para que os seus últimos pensamentos tenham sido um pedido de perdão e me recolho aos meus aposentos, uma única lágrima partindo do meu olho solitário.

 

***

 

Quantos mundos eu já subjuguei? Quantas espécies de criaturas já se curvaram sob o olhar dos deuses, porém perante as minhas botas, cobertas de lama e sangue? Já não sou, portanto, eu mesma uma deusa? Não é à “Micaela, a destruidora” que os soldados recorrem nos momentos de maior provação? Já não sinto mais que somos irmãos de armas. Antes, é como se eu fosse uma mãe, severa, porém carinhosa, a abarcar as minhas crianças em um abraço protetor, guiando-as pelas mãos, patas e tentáculos de missão em missão. Não todos, mas a maioria retorna do inferno para lutar novamente. O inferno. Hoje eu estou tendo uma amostra dele. Já aconteceu antes, é claro, mas nunca comigo. Afirmar que todos se rendem é uma falácia, desconstruída pelos fatos frios que criam as exceções das regras estatísticas. Há aqueles que jamais se curvam. Encontro-me agora frente a uma criatura muito pequena, de orelhas e olhos enormes, corpo coberto de pelos pretos e brancos e uma expressão serena na face. Nem mesmo os incontáveis cadáveres ao seu redor parecem perturbar a sua expressão. Ele fala e um dos onipresentes emissários robóticos traduz as suas palavras, e sinto um aperto no meu coração, ainda vivo sob tantas camadas de metal. Não se curvariam. Não abririam mão dos seus falsos deuses e crenças corrompidas.  “Morra”, eu penso, uma aflição incomum crescendo dentro do peito. “Morra uma morte horrível e nos ajude a convencer o seu povo da verdade. Nos ajude a salvá-los”. Ergo a mão e estendo o probóscide, mas os emissários me impedem de continuar. Os deuses haviam conferenciado entre si, e julgado aquela raça inadequada para adentrar o panteão, junto com todas as outras, para lutar futuramente em seu nome. Jamais seriam deuses. Não havia mais futuro para eles. Voltamos para as nossas naves em silêncio e observamos, do alto, o fogo radioativo varrer a superfície daquele mundo, esterilizando-o não apenas de vida, mas da possibilidade de vida. Em pouco tempo, não passava de um imenso pedaço de rocha a flutuar pelo vácuo negro do espaço, uma lápide gigantesca para testemunhar o fim de uma raça que não se curvou. Tantas palavras de sabedoria eu e meus evangelistas espalhamos por aquela gente, sem nenhum efeito. Luz, Dor, Paz, Silêncio, Morte ou qualquer uma das outras que compõe a nossa litania de destruição foram inúteis. Eles não se curvaram e agora universo está menos vivo em consequência disso. Sozinha, em meus aposentos, os pensamentos revoluteiam pela minha mente. Serei uma deusa de misericórdia, quando a minha hora chegar? Ou continuarei a ser o anjo da morte que sou hoje, aniquilando civilizações inteiras a cada bater de asas? Deitada, corro meus dedos mecânicos pelo lado vazio da cama, onde Elísio estaria. Tudo o que me resta é dormir e sonhar sonhos cheios de sangue, fogo e morte.

 

***

 

Meus soldados se reúnem à minha volta, formando um anel de aço ao redor do meu corpo destroçado. Há tempos não experimentamos uma resistência tão feroz quanto a dos habitantes deste mundo, e o contra-ataque que suportamos me custou a vida. Sei que custou. Meu sargento segura, com todos os apêndices de que dispõe, o que resta da minha mão em frangalhos, enquanto aguardamos o socorro médico que talvez pudesse me salvar, se chegasse a tempo. Não chegará. No céu sobre as nossas cabeças, mais evangelistas continuam caindo, nossas naves e as dos inimigos se enfrentado na atmosfera e no espaço fora dela, perseguindo-se por entre luas destroçadas. Será que os deuses estão olhando para baixo nesse momento, observando o corpo alquebrado de Micaela? O pouco de carne que ainda me resta queima como que inflamada pela vontade divina, e sei que não me resta muito mais tempo agora. Minhas ordens sem sentido são ignoradas pelos meus comandados, que não se retiram nem se reagrupam, continuando a me proteger, a lutar em meu nome. Em meu nome, não pelos deuses. Sou uma deusa agora. Não importa que não tenha transcendido verdadeiramente para me tornar uma. Sou uma deusa despojada de divindade, e meus seguidores vivem e morrem para atender os meus caprichos. Agora eu sei. Lentamente, o círculo se abre para dar passagem aos emissários, que tomam meu corpo com muito cuidado e o evacuam para uma de nossas naves. Para quê? Preferia morrer junto aos meus irmãos, eles também deuses, gritando as palavras da nossa fé enquanto arrasam aquele mundo com uma fúria redobrada. Sou levada para a sala de cirurgia, sabendo que é inútil. Há tão pouco de mim agora, tão pouco. E então, eles começam. Os emissários trabalham em silêncio, consertando, fixando, soldando, substituindo, criando. Sinto os últimos pedaços de Micela serem arrancados de mim. E agora, escuridão.

Quando desperto, ela não existe mais. Posso voar, finalmente, mas não me foram concedidas asas. Não preciso de um espelho para saber o que enxergaria nele. Mais um emissário se junta aos incontáveis outros que pairam silenciosamente naquele lugar. Eles me dão as boas-vindas com vozes frias e membros de metal. “Irmã”, eles sussurram. “Deusa”. Somos todos deuses agora. Não possuo mais garganta para gritar ou lágrimas para derramar. Sou uma deusa agora e há incontáveis mundos para conquistar na vastidão infinita do espaço.  

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