Conto Memória Ruim, de Geraldo Lima

Memória Ruim

 

PARTE 1.

 

O vírus da angústia instalou-se em seu sistema nervoso e deu início ao processo corrosivo de aniquilar a sua paz de espírito. Até uma semana atrás, estava sereno e imerso num lago de águas calmas, resignadas com os limites que as margens lhes impõem. Só uma leve brisa, vez ou outra, ondulava sua superfície. Nada, porém, capaz de agitar furiosamente seu âmago. Lá no fundo, a alma, líquida e intangível, repousava sem sobressaltos.

A mensagem que poderia restituir-lhe o sossego não chegaria mais, apesar de as palavras do Outro terem lhe parecido carregadas de urgência e encantamento: lera o seu livro e havia ficado impressionado. Havia escrito então um breve comentário que, caso ele quisesse, poderia lhe enviar. Ele disse que sim, quase sem raciocinar. O Outro, sondando a origem da sua escrita, do seu delírio, das suas veredas, lançara miúdas pedras sobre as quais ele devia equilibrar-se. Indagações. Anzol arremessado o mais distante da margem. Sua alma, em espasmos de alegria, derramou-se então feito um rio invadido pela tromba d’água.   

A mensagem não chegaria mais. No instante em que apertou a tecla “enviar”, Felipe deu-se conta de que seu espasmo verbal havia fechado as portas para a resposta do Outro. Uma frase, dita daquela maneira, taxativa, querendo desnudar o ser com tanta franqueza, não deixaria vãos por onde o indagar alheio pudesse penetrar. Não havia como desdizer. Não havia como retroceder no tempo e consertar o aleijão. A ferida latejava exposta ao calor das três da tarde.

Sete dias, e só o silêncio abissal entre eles. O presente sufocante e infindável. A opressão da memória remoendo as palavras cobertas de pus.

 

PARTE 2.

 

A esposa o observava distante e irrequieto. Normalmente, era sossegado e carinhoso. Há dias, no entanto, a fonte secara: nenhum gesto de ternura escapava-lhe das mãos. Mantinha-se afastado e inacessível.  

Sabia que estava violando um acordo, pondo em risco a segurança deles, contudo, sem conseguir se conter, lia na mente do companheiro o turbilhão de imagens que o esmagava. Esse era o peso daquele dom: saber com absurda clareza tudo o que fervilhava na mente do ser amado. Saber, mas não poder fazer nada. Esse limite, essa fronteira que ela não podia cruzar, era a razão maior da sua angústia. — Espere mais um pouco, meu bem, antes de fazer qualquer coisa. Talvez ele esteja refazendo o texto. Deve ser um crítico meticuloso, e o que você disse o fez repensar o que havia escrito. Só não acho conveniente que você desdiga o que foi dito com franqueza. Aguarde mais um pouco e, caso ele não responda, esqueça tudo isso.

Se assustou ao ouvir as palavras de Ísis. Se não lhe havia falado nada, como tinha chegado à causa da sua inquietude? Só restava uma explicação: ela havia lido a sua mente. Havia rompido o acordado entre eles e entrara em sua mente sem lhe avisar.

Não bastassem os satélites fotografando milimetricamente a Terra, as câmeras postadas em cada canto da cidade flagrando todo tipo de gesto, os microchips incrustados na pele delatando a localização do seu portador, os sensores de emoção revelando os desejos mais íntimos, havia Ísis, Ísis e seu poder de ler a mente humana.

Para que a vida de ambos não se tornasse um inferno e a privacidade dele não fosse invadida inescrupulosamente, combinaram de que ela só acessaria sua mente após emitir um sinal preestabelecido. Mesmo assim, ele teria que concordar e ela jamais poderia agir como um hacker. Felipe sabia que era difícil para a esposa manter-se longe dos seus pensamentos, refreando a vontade de conhecê-los. Para ele, a mente era o refúgio onde podia sentir-se ainda senhor das suas vontades. Manter-se livre dos rastreadores de memória do Estado era uma habilidade que havia desenvolvido com muito esforço. Mas, para se safar do poder de ler a mente, desenvolvido por algumas pessoas, entre elas Ísis, não havia muito recurso. Só se podia contar mesmo com o temor que essas pessoas sentiam de ser descobertas e apagadas pelos agentes do Órgão de Controle das Atividades Mentais. A esposa, no entanto, esquecera-se desse risco no afã de apoiá-lo.  

Ísis invadira a sua mente e fizera o download completo dos seus arquivos. — Me perdoe, querido — ela choramingou. — Vi você sofrendo desse jeito e não pude me conter. Felipe, como ela nunca havia visto, retrucou áspero, quase violento: — Sei o que você pensou no início: ah, ele deve estar envolvido com alguma vagabunda! Foi atrás dessa suspeita que você veio, e isso só expõe a sua fraqueza.  Como posso confiar em você agora?

Um dos filhos do casal, atraído pelo tom de voz exaltado do pai, apareceu no vão da porta da sala. A mãe mandou que ele voltasse para o quarto, mas a criança, contrariando-a, agarrou-se às pernas do pai e começou a chorar. A imagem, melodramática e pungente, arrefeceu a ira, e ambos abraçaram-se ao filho como náufragos tentando salvar-se na tempestade.

 

PARTE  3.

 

Ísis não podia saber o que ele estava planejando. A única saída era trancar-se durante horas e horas na biblioteca, como se estivesse trabalhando na criação de um novo livro, e traçar uma estratégia para se livrar do mal que lhe roubava o sossego.

O tormento provocado pela espera da mensagem que jamais seria enviada inchara em sua cabeça a ponto de quase levá-lo à loucura. Tentava disfarçar, mostrar-se curado, senhor da sua mente. A verdade, entretanto, é que não tivera mais concentração alguma para sentar-se e escrever uma única linha do romance Os últimos cavalos pastam bem ali. Aridez total. O seu ser se mortificava naquele cenário de vazio e angústia. Era preciso livrar-se, o mais rápido possível, daquele vírus que devastava a sua alma.

Uma última preocupação o havia assaltado nos últimos dias. E se as palavras do crítico tivessem sido interceptadas pelos agentes da censura? Provavelmente, ele estaria preso agora, pois a atividade crítica só podia ser exercida dentro do rígido controle dos órgãos do Estado. E aquele crítico lhe parecera bastante independente, mostrando-se interessado na descoberta de novas expressões literárias. Manifestara isso em relação a seu texto, vendo nele “uma expressão genuína de repúdio à nova realidade social que nos sufoca”.  Com certeza, os agentes viriam à sua procura. E, juntos aos livros liberados pela censura, iriam descobrir os que ele escrevia e publicava clandestinamente, usando pseudônimos. Para complicar ainda mais, poderiam descobrir o poder mental de Ísis também.

 

PARTE 4.

 

Aproveitou um momento em que a esposa não estava em casa e saiu em busca da cura para a enfermidade que o desassossegava.

Andou mais de uma hora, sem saber aonde ir. Saía de uma avenida larga, movimentada, para se enveredar por ruas estreitas e desertas. Depois retornava à mesma avenida, misturando-se à multidão na calçada, mas, logo em seguida, sentindo-se sufocado, buscava as vielas, os becos, as praças ocupadas por jovens skatistas e alguns desocupados. Por fim, já cansado, resolveu parar e colocar as ideias em ordem. Aquela sua perambulação acabaria despertando a desconfiança dos guardas da ordem pública, o que só lhe traria problemas.  

Estava se perdendo de vez. A loucura, corrosiva e implacável, levava-o para longe de casa.  Compreendeu, enfim, que só havia uma solução. Extrema, sem dúvida, porém a única capaz de restituir-lhe a tranquilidade. Sabia, contudo, que essa tranquilidade poderia significar, também, o vazio infinito, o fim do escritor Felipe Andrade e todos os seus pseudônimos.

O seu andar a esmo era só uma forma de protelar essa tomada de decisão. Decidiu, enfim, dirigir-se para a Zona Morta da cidade, como a haviam denominado nas altas esferas governamentais.

Era ali que ele pretendia encontrar a solução para o seu caso, naquele mundo sombrio, entranhado no esquecimento, no abandono. Um mundo onde, quase num estado natural, podia-se desfrutar de uma liberdade absoluta. Ali os lúmpens, a escória, os renegados, os rebeldes, os poetas malditos, os cientistas descartados pelo sistema, os visionários, todos se refugiavam livres da perseguição dos olhos eletrônicos do Estado. Este, como era do conhecimento de todos, não tinha interesse algum de penetrar naquele universo decadente, autônomo, que primava pelo jogo do vale-tudo pela sobrevivência. As autoridades só tinham que se preocupar em manter toda essa gente lá, confinada, dando cabo de si mesma.  

Naquela parte podre da cidade, encontrava-se, no entanto, a pessoa capaz de arrancar-lhe da mente o vírus do desassossego, da ansiedade, da angústia causada pela espera infinita. Alguém que, contrariando as diretrizes do Estado totalitário, persistia no uso de algumas técnicas da medicina cuja aplicação devia obedecer às orientações das autoridades. Um amigo lhe falara, há menos de uma semana, da existência de um renegado da medicina oficial com uma habilidade impressionante para deletar lembranças ruins. Essa técnica da medicina estava terminantemente proibida por uma Lei cuja penalidade era a execução sumária do seu infrator. Só ao aparelho higienizador do Estado cabia fazer uso dela, e todos sabiam muito bem com que finalidade.  

Felipe Andrade embrenhou-se nessas trevas sem receio algum. Esgueirou-se para o interior de um edifício decadente. Desceu a escada agarrando-se ao corrimão de tinta gasta e chegou ao subsolo. Uma lâmpada de luz trêmula permitiu-lhe divisar a porta de madeira carcomida e coberta de pichações. Do lado direito havia um vídeo porteiro, aparentemente em bom estado, o que era surpreendente em se tratando daquele submundo. Ali, energia elétrica e tecnologia em funcionamento eram um luxo.

Apertou o botão do vídeo porteiro certo de que, ao final, teria que fazer uso do método ancestral de bater à porta com a junta dos dedos. Para sua surpresa, uma voz rouca e temerosa vazou pelos orifícios do aparelho. — O que você deseja?, indagou a voz medrosa. — Preciso do seu serviço… — Felipe balbuciou —, estou com um problema…. — Que tipo de problema?, o outro indagou, cheio de pressa e medo. — Uma ideia infernal me atormenta há dias, preciso arrancá-la. Você pode fazer isso, não pode? Alguém me disse…. — Quem disse isso?!, ouviu a voz paranoica perguntar ainda mais rouca e trêmula.  — Um amigo. — Nome! — Alberto. — Só isso, Alberto? Ninguém mais tem sobrenome nesse mundo nojento?!, gritou o sujeito, e pareceu prestes a encerrar a conversa. Felipe se apressou a responder. — Que diferença isso faz, meu caro, só os números interessam agora. Quer o número de identificação dele? Ouviu o outro responder que sim, justificando, ao mesmo tempo, que todas aquelas medidas de segurança tinham sua razão de ser, todo cuidado era pouco, pois bandidos e autoridades, mais bandidas ainda, queriam saquear tudo.

 

PARTE 5.

Lá dentro, naquilo que o renegado chamaria de consultório médico ou ambiente de trabalho, viu apenas dois sofás detonados pelo uso e uma mesinha de centro, das antigas, em cujo tampo de vidro destacava-se um cinzeiro abarrotado de tocos de cigarro. De nada havia adiantado o esforço das autoridades para banir o tabagismo do nosso mundo, Felipe pensou, enquanto tentava respirar com naturalidade. A necessidade de se ter algo que aplaque a ansiedade e a angústia é mais forte que as Leis. Sempre foi assim, e não mudará nunca. Nem neste submundo, corroído pela decadência, nem no mundo higienizado onde a gente cordata vive sob a tutela do Estado. Prova disso é que, apesar de toda a repressão, de todos os slogans, ei-lo aí, o velho e bom cigarro, impregnando tudo com o cheiro nauseante de nicotina. Para ilustrar as divagações de Felipe, o médico, sentando-se à sua frente, acendeu um cigarro e soltou uma baforada na direção do teto. O forte odor de mofo tornava aquele ambiente mais sinistro e irrespirável. Está de acordo com o que acontece aqui, pensou consigo e olhou para a cara macilenta do médico. Estranho seria encontrar um ambiente de luxo neste buraco.

Depois de umas duas baforadas, o médico perguntou a Felipe: — Então é isso que você quer? Você sabe, o processo é irreversível.

A pergunta o desconcertou. Por um momento, viu-se diante de uma encruzilhada. Embora tivesse saído de casa com o nítido propósito de esvaziar a mente, já não estava tão seguro agora, mesmo porque aquele ambiente não lhe transmitia segurança. Buscou na extensão da sala algum instrumento que mostrasse com clareza que aquele local era destinado a aliviar a mente das pessoas atacada pelo suplício das más lembranças. Não havia nada: nem computador, nem estufa, nem balão de oxigênio, menos ainda as famosas máquinas rastreadoras de imagens mentais. E onde estava a maca em que deveria se deitar para que a operação fosse realizada?

O homem parece ter percebido a insegurança de Felipe e procurou acalmá-lo. — O processo, do ponto de vista técnico, é bastante simples. É claro que me falta o instrumental sofisticado que o sistema possui. As tais máquinas de precisão, os robôs capazes de acertar cem por cento das operações. Meu instrumental é até rudimentar, se pensarmos desse ponto de vista, mas posso lhe garantir que não tem falhado.

A voz do outro parecia segura do que estava dizendo. Mostrava-se bem profissional. Mas havia o risco, sempre havia nesse tipo de situação. Há muito tempo as mulheres abortavam assim, em situação precária, sem nenhum conforto, colocando a própria vida em risco. Até que o Estado resolveu, rompendo a aliança com a Igreja, tomar para si a responsabilidade de evitar as gravidezes indesejadas. Claro, queriam ter em mãos mais um instrumento de controle social. Agora ditavam, inclusive, como na velha China comunista, o número de filhos que cada casal poderia ter.  

Felipe procurou reencontrar a certeza de antes, a mesma que o havia levado até ali. Embora o sujeito sentado à sua frente fosse um renegado, alguém que o sistema cuspira para fora das suas engrenagens, exatamente por ele querer manter uma autonomia impensada naqueles tempos, era, sem dúvida, um especialista em deletar memórias ruins. — Sim, tenho certeza. É isso que eu quero — e comprimiu a cabeça para mostrar que não podia mais conviver com aquela memória doente, opressiva. — Tenho dinheiro suficiente para pagar pelo serviço.

O especialista fez um gesto de reprovação, querendo deixar claro que sua meta não era o lucro, que fazia aquilo por amor ao próximo, que era por isso que se arriscava a ser preso e condenado ao desterro num planeta fora do nosso sistema solar. Em seguida, porém, sem vacilar, estendeu a mão e pegou o dinheiro que o paciente lhe estendia. — Então, que seja feita a sua vontade, — concluiu em tom falsamente melancólico. — Mas preciso te alertar de uma coisa antes de começar o processo. Assumiu, então, um ar sério de profissional que zela pela integridade do seu trabalho. — O que é?, Felipe lhe perguntou, sem conseguir esconder a preocupação e a ansiedade. O médico deu uma baforada, em seguida esmagou o toco de cigarro no cinzeiro, derramando cinza e guimbas sobre o vidro da mesinha de centro.  Curvou-se em direção a ele e tentou lhe explicar com clareza. — Se algo der errado, porque às vezes acontece de dar errado, não sou infalível, sou humano, só esses malditos robôs têm a precisão milimétrica… Bom, é isso, algo pode dar errado, e se der errado, toda a sua memória vai pro beleléu. Entendeu? Tudo será apagado. C’est fini. Pensa: será como se estivesse nascendo a partir de agora.  

A imagem de Ísis, na companhia dos filhos, Clarice e Gregor, passou diante dos seus olhos. Se tudo se apagasse em sua mente, não os reconheceria mais. Não encontraria, nem mesmo, o caminho de volta para casa. Seria um outro a partir daquele momento. Livre do vírus que arruinava sua memória. Livre das palavras que não deveria ter dito. Livre da esperança de que o Outro, um belo dia, diante do computador, decidiria, enfim, apertar a tecla “enviar”. Livre, mas transformado numa página em branco. Talvez não conseguisse escrever nem mais uma linha sequer. E o romance iniciado há um mês? Os cavalos, no momento, descansavam à sombra de um cinamomo. Sentiu vontade de chorar, copiosamente. O que o especialista lhe propunha era o risco, a aventura, o incerto. Mas era aquilo ou a loucura. — E então, o que decidiu?, perguntou-lhe o médico já impaciente. Felipe fechou os olhos, ficou ainda alguns segundos assim, como se refletisse, como se estivesse tentando reter uma imagem muito querida, de alguém ou de algum lugar, e então disse que sim, que estava pronto.

O especialista em deletar memórias ruins abriu uma maleta que estivera o tempo todo ao seu lado, mas que só agora Felipe havia notado, e tirou de lá as ferramentas de trabalho. Fixou dois eletrodos à testa do paciente, conectou-os a uma pequena máquina e clicou duas teclas. Simples assim: dois cliques, e ele sentiu a memória ser sugada para fora, violentamente. Não chegou a sentir dor, apenas o efeito de um clarão tão forte, tão intenso, que era como se um sol tivesse sido aceso no oco da sua cabeça naquele exato instante.

    

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s