Intangível, conto de Laís Manfrini

Intangível

Foi repentino.

Num instante ela estava de pé, sorridente, falando sobre como seu novo invento tinha sido elogiado na Feira de Inovações de Novacidade. No outro estava morta. Simplesmente apagou, como se sua bateria tivesse terminado, e despencou sem vida sobre o piso de madeira da oficina de Izara.

Ela correu até a amiga e ajoelhou-se ao lado de seu corpo inerte. Checou seus sinais vitais: um coração de metal desligado, respiração inexistente. Sem bateria, realmente.

Izara espalmou a mão contra a testa, amaldiçoando sua burrice. Tantos anos trabalhando naquele projeto, e ia se esquecer logo do detalhe mais óbvio: baterias eram fontes de energia finitas.

Miarana era uma boa amiga. Dizia as coisas certas, calava-se nos momentos ideais. Era criativa, e entendia as piores inquietações de Izara melhor que a própria. Entretanto, não era bem a morte de Miarana que entristecia Izara. Era a morte de seus sonhos, de seu projeto mais importante, de sua possibilidade de viver para ver o mundo chegar ao seu auge tecnológico.

Naquela manhã, Izara chorou porque, no fim, sua tentativa de ser eterna — e de trazer a eternidade ao mundo — havia falhado.

*

O bar de Zarima estava lotado e barulhento naquela noite. Não que não o fosse em todas as demais, conforme atestado pelas mesas de madeira polida, as cadeiras estofadas em veludo e o balcão de mogno que separava os clientes embriagados das frágeis garrafas que guardavam as fórmulas coloridas que eram um sucesso tanto entre os moradores de Novacidade quanto entre os forasteiros.

Mas, naquela noite, estava especialmente cheio, e a multidão, particularmente animada. Composta principalmente de colegas inventores satisfeitos com seu desempenho na Feira de Inventos e empresários que desfilavam em seus ternos e vestidos elegantes em busca de engenhocas que continuassem a bancar suas vidas cheias de luxo.

Muitos já estavam mais do que bêbados, seguros de que poderiam arcar com uma noite de bebedeira interminável e ainda acordar com os bolsos cheios de dinheiro no dia seguinte, mas vários ergueram suas taças em um cumprimento a Izara.

Ela ignorou todos eles, desejando fortemente ter algo que comemorar, e contornou a multidão habilmente, indo se sentar diante de Enyon.

Os olhos do médico a analisaram por trás das lentes de aros metálicos.

— Você está um lixo — foi o veredicto.

Izara suspirou e tomou mais um gole de seu drinque.

— Sou uma fracassada — resmungou.

E, tentando se fazer ouvir em meio à balbúrdia que normalmente preenchia o elegante bar de Zarima, explicou sobre a falha de seu projeto e da morte de Miarana. Quando pôs fim ao relato, apagando as últimas palavras amarguradas com grandes goles da bebida azul, os olhos de Enyon estavam esbugalhados.

— Uma bateria. Precisamos de uma bateria — ele murmurou; parecia ainda mais atordoado que a própria Izara.

O silêncio os envolveu, e estava tão pesado que parecia isolá-los de conversas, risos e música. Na mesa ao lado, um grupo de inventores particularmente animados brindava pelo futuro, mas a Izara o som das taças se chocando se parecia com o barulho que seus sonhos fariam se pudessem se estilhaçar como cristal. Ela não viveria para o futuro.

Terminaram as bebidas em silêncio e o atendente lhes trouxe outra; as novas bebidas já estavam no fim quando Enyon voltou a falar:

— Sei de uma pessoa que tem baterias infinitas. Ele não apresentou nada na Feira, mas falou sem parar disso.

— Quem?

— Emarazzo Azitelli. Não entendi muito bem o que ele falou, era um negócio doido. Tão doido quanto esse seu coração de metal que dá (que deveria dar) vida eterna. Alguma coisa como a própria bateria se recarregar.

— Interessante — disse Izara. No fundo, não acreditava. Conhecia o sujeito: era um maluco. Parte de sua mente, porém, trabalhava em um plano de invasão. A esperança, esta sim parecia nunca morrer.

Uma faísca luminosa interrompeu suas divagações e ela largou a taça, assustada. Agitou os dedos, procurando dissipar o calor da pequena queimadura em seu dedo. O refrigerador portátil acoplado à base de sua taça tinha dado um curto.

— Céus, que desastre! — exclamou Enyon.

Um desastre, mesmo, Izara concordou em silêncio, Não bastasse tudo o que passei, sequer posso mais desfrutar de uma bebida gelada.

*

Os demais inventos de Izara não eram lá tão ruins. Sua serra delicada de motor silencioso, por exemplo, serviu muito bem para inutilizar as trancas da janela, assim como o anulador, com um único botão, foi eficiente em desarmar todas as engenhocas que protegiam a casa simplesmente cortando o fornecimento elétrico para a região.

A lua e o vento noturno testemunharam seu sorriso. O coração metálico de Miarana não funcionava sem energia, mas os inventos do tal Emarazzo também não. Estavam todos no mesmo barco, afinal.

Isso não tornava a oficina do sujeito menos interessante.

Era ampla e arejada, com piso de madeira e paredes claras. Além da janela pela qual Izara havia entrado, havia mais duas, todas altas e estreitas, mas ainda assim eficientes em fornecer a luz na abundância adequada. Mesmo à noite e com todas as luzes elétricas dos arredores apagadas, a luz do luar se derramava sobre as bancadas e prateleiras, revelando uma bagunça organizada que dizia que aquele espaço era usado e amado.

Por alguns instantes, ela esqueceu o que viera fazer ali. Esqueceu Miarana e seu coração de metal, esqueceu até mesmo a angústia que apertava seu peito. Emarazzo era louco, sim, mas um louco produtivo — e genial. Tinha os olhos no futuro: isso era evidente na circunferência das engrenagens, nos ângulos das alavancas, na força das roldanas. Todos os ângulos, curvas e quinas pareciam sussurrar progresso.

Talvez por isso Emarazzo estivesse trabalhando em uma bateria capaz de perdurar por toda a eternidade. Talvez o mesmo medo habitasse seu coração feito de células e sangue, o mesmo pesadelo visitasse sua mente nas madrugadas. Ali havia futuro e progresso, mas eram apenas projetos, sombras de um futuro trazidas pela mente de um inventor que nunca chegaria a vivê-lo.

Falando na bateria, lá estava ela. Repousava sobre uma das bancadas em meio a vários outros dispositivos, como se não fosse nada de mais. Não parecia muito diferente de qualquer outra bateria que Izara tivesse visto ou produzido.

Mas o que importava era o que ela representava. E essa ideia, como um imã, fez Izara se aproximar com passos lentos, quase reverentes, e parar diante da bancada, os olhos fixos no objeto de desejo.

Diante dele, a dúvida surgiu mais uma vez. Estaria ali a solução dos seus problemas, o fim dos pesadelos que a assolavam toda noite?

— Estive na Feira de Inventos do ano passado — a voz sobressaltou Izara e fez com que ela se virasse para o homem que tão sorrateiramente se pusera atrás dela —, e vi com meus próprios olhos o seu aniquilador. Belíssima ideia, eu pensei. Fiquei até com inveja: queria ter pensado nisso. Na verdade, fiquei tão doído que chorei por três noites seguidas. Depois, segui em frente. Não posso ficar tão dependente desse recurso que ilumina nossas noites e faz nossos inventos girarem. Tinha que encontrar uma coisa que não fosse afetada pelo seu aniquilador.

— Ah… — foi tudo o que saiu dos lábios de Izara.

O sorriso de Emarazzo parecia querer oferecer conforto.

— É, agora você entende o que eu senti, não é? Mas não a culpo: você não tinha como saber. Você é tão hábil como criminosa quanto como inventora, e isto é um senhor elogio, se é que você é do tipo que se orgulha de ser capaz de invadir casas alheias.

O homem fez uma pausa e deu um passo à frente, seus olhos agora sobre a bateria. Ele não parecia um louco. Não falava como um, definitivamente — embora Izara nunca tivesse conversado com um louco.

— Também estive na Feira desse ano, e confesso que senti sua falta. Fiquei sabendo que você andou trabalhando em um coração de metal que devia ser capaz de dar vida eterna àqueles que fossem corajosos o suficiente para substituir seu próprio coração por ele. Um projeto intrincado, trabalhoso. Impressionante, de fato. Mas estou decepcionado, Izara. Por que travar uma batalha logo contra ela, que leva a todos sem distinção?

Izara franziu o cenho. Ele era louco, sim.

— E por que não travar? — Por que ele não via o que era óbvio? Mas ela não podia criticar, tampouco: naquela mesma manhã fora vencida por uma bateria. — Olhe para nós! A eletricidade ilumina nossas noites, os veículos nos levam de um lado a outro sem precisar da força dos animais, podemos gelar nossas bebidas sem deixá-las aguadas com as pedras de gelo. Nunca estivemos tão perto do futuro, mas também nunca estivemos tão longe de torná-lo nosso presente. Somos meros mortais, capazes de construir máquinas impressionantes, mas ainda assim tão fracos a ponto de sucumbirem ao fio de uma faca. E, se morrermos, para onde vão as ideias que não tivermos tempo de concretizar no espaço de uma vida?

Emarazzo se manteve em silêncio. Era a vez dele de ficar sem palavras. Mas era um homem inteligente (e louco, Izara estava cada vez mais convencida), por isso não tardou a encontrar uma resposta:

— A eternidade é como uma sombra. Nós entendemos o conceito, podemos explicá-lo a outros, podemos admirá-lo. Mas, tal qual uma sombra, não podemos tocá-la. Conseguimos até mesmo encostar o dedo na superfície em que se projeta, mas tocá-la de fato? Não podemos. — Meneou a cabeça na direção da bateria que deveria fornecer energia eternamente. — Foi isso que aprendi enquanto tentava, sem sucesso, concluir o que imagino ser o maior projeto de minha vida. É isso que você devia ter aprendido quando sua amiga caiu morta nesta manhã (sim, soube disto também).

— Belas palavras, as suas. Quase tão bonitas quanto tudo isso o que tem aqui. Mas você é um covarde.

Emarazzo deu um passo para trás, pela primeira vez naquela noite aparentando insegurança. E devia mesmo. Quem pensava que era para desistir daquela maneira do maior projeto de sua vida? Só podia ser mesmo um louco.

Despejou uma série de impropérios sobre o desgraçado e não saiu da oficina antes de lhe gritar que nunca mais ousasse se aproximar dela. Quando chegou à rua, desatou a correr, sem nem mesmo se importar em devolver às luzes ao bairro escurecido, e não parou até que estivesse na segurança familiar de sua própria oficina.

Ali, de joelhos entre todas as ideias que trouxera ao mundo, tomou sua decisão. Uma bateria roubada não daria ao seu invento o glamour necessário. Ela era boa demais para roubar ideias. Construiria sua própria bateria eterna.

E enquanto não fosse capaz de concebê-la, tinha uma solução paliativa para sua invenção funcionar. Tivera o estalo quando as palavras de Emarazzo lhe voltaram à mente: Não posso ficar tão dependente desse recurso que ilumina nossas noites e faz nossos inventos girarem. Não era uma boa ideia, de fato, mas teria de servir. Seria, além disso, constrangedor ter de se plugar a uma tomada em público. Mas pelo menos seria eterna. Ou ao menos tão eterna quanto alguém com coração de metal e bateria recarregável poderia ser.

A esperança era a única que nunca morria.

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