Luisandro Mendes de Souza, conto Cadê as crianças?

 

Cadê as crianças?

Márcio estava de pé no vagão de trem lotado. Fitava o horizonte, onde o sol se punha. Todos estavam calados, exaustos depois do dia de trabalho. Cabisbaixos, deveriam estar pensando nos seus problemas, nos seus afazeres. Ele repassava mentalmente as instruções que recebera para a operação da nova máquina de processamento de frutas, cujo desempenho economizava o trabalho de vinte mãos, pelo menos. Era o que dizia orgulhoso o engenheiro que a projetou e estava treinando os funcionários da fábrica. Onde antes trabalhavam vinte, dizia, agora trabalha um. Basta que se alimente a máquina constantemente, se assegure de que ela seja lubrificada, e tenha pausas de trinta minutos a cada vinte e quatros horas para resfriar, ensinava.

Márcio chacoalhava com os leves solavancos que os vagões davam, quando avistou ao longe uma bola de fogo, que vinha da linha do horizonte e crescia em tamanho. Não tinha som discernível, apenas aquele objeto que se avolumava e parecia vir em direção ao trem. Olhou para os lados. Ninguém tinha percebido. Olhou novamente e a viu passar sobre o vagão. Se virou rapidamente. Viu a bola cair ao longe e levantar um cogumelo de fumaça branca. Mirou novamente o horizonte. Mais bolas de fogo caiam. O trem seguia seu curso sobre a linha elevada. E a cada bola que caía, novos cogumelos de fumaça e torres de fogo se erguiam. Seu filho Gustavo ainda estava na escola.

– Caramba! – uma interjeição sussurrada escapou da sua boca.

Todos pareciam anestesiados com o que viam. A sua palavra foi o catalisador. Muitas mulheres começaram a gritar em desespero, pedindo que o trem parasse. Uma voz soou no alto-falante, pedia que todos ficassem calmos, que… não conseguiu terminar o aviso. A luz se acabou e o trem parou. Tudo escureceu. As luzes, que tinham começado a se acender pela cidade toda há alguns minutos, pagaram como se alguém tivesse desligado o contador da cidade. Estavam sobre os trilhos. Abaixo os carros buzinavam. A próxima estação ficava pelo menos três quilômetros dali em cada uma das direções.

– Vamos abrir a janela de emergência – alguém sugeriu.

Do lado de fora, todos os passageiros contemplavam as torres de fogo e fumaça. As bombas, ou o que quer que tinha sido aquilo, tinham cessado. Quem tinha telefone portátil conferiu o sinal: nulo. Márcio olhou para o horizonte e viu os últimos raios de sol se esconderem. Precisava buscar o Gustavo. Olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para as seis horas. A escola ficava a quatro estações de onde ele estava. Era meia-hora de caminhada, pelo menos. Descendo até a avenida, talvez conseguisse pegar um ônibus. Abaixo de si. Os carros continuavam buzinando.

“Vamos para a próxima estação”, alguém sugeriu. E todos partiram caminhando. As mulheres soavam mais calmas agora. Muitas ainda choravam. “Meu filho!”, “Meu marido!”, “Minha filha!”, ele ouvia as palavras pipocarem atrás de si, ou à sua frente. “Estamos sendo atacados?”, alguém se perguntou, um pouco atrás. “A Federação Industrial não ousaria”, outro respondeu. “Teriam atingido as torres ou os satélites?”, Márcio ouviu alguém perguntar alto atrás de si sem obter resposta de ninguém. Gustavo. A escola, o apartamento. Cérebro. Como compraria ração para o hamster do filho? Tinha coisas mais importantes pra pensar agora. As causas era um problema da administração central. Não tinha nada que ele pudesse fazer.

Vários helicópteros militares cruzaram o céu. Pelo menos foi o que lhe pareceu. Deviam ser militares: eram de cor verde-oliva e partiam em direção à fumaça. Em seguida as sirenes de viaturas diversas, policiais, bombeiros e ambulâncias, se sobrepuseram aos outros barulhos da noite, agora plena. As buzinas prosseguiam. De dentro dos seus carros, ninguém deve ter ouvido nada, ou visto. As pessoas estavam calmas, apesar da impaciência. Apenas queriam ir para casa. Márcio também queria ir para casa logo. Queria tomar um banho, assistir o jogo de futebol digital, jantar com o filho, colocá-lo na cama e ir dormir. Como fazem toda noite. A vida era tão boa e simples assim, não precisava mudar. Mudar nunca é bom.

Chegavam à estação. Frágeis luzes de emergência indicavam as escadas. Seguranças com lanternas direcionavam os cidadãos, que se aglomeravam. O trem estava lotado naquele horário, e a pequena multidão desceu as escadas formando uma massa humana que se dissipou ao alcançar a rua. Os semáforos estavam apagados e não tinha guardas nas esquinas para organizar o trânsito. Devem estar todos envolvidos com os incêndios, calculou Márcio. Mesmo assim, os guardas municipais deveriam estar pela cidade. Não estavam. A coisa toda devia ser muito grave então, raciocinou o nosso personagem.

Tinha um ponto de ônibus do outro lado da rua. Márcio passou pelo labirinto de carros. De pescoço esticado as pessoas procuravam o letreiro do ônibus ao longe. Devia estar a pelo menos uns cem metros dali. Ele não conseguiu dizer o que estava escrito nele. São vinte minutos de caminhada até a escola. A fila de carros andava e parava. Andava e parava. Não. melhor ir caminhando. Até o ônibus chegar ali ele já estaria muito adiante, quase chegando ao seu destino. Mas vai que poucas quadras depois o trânsito esteja livre? Bom. Não era o que parecia. Não devia estar livre. Devia estar tudo trancado. Foi bom ter vendido o carro pra comprar o apartamento. Gustavo estaria bem? Sim. Claro que tá bem. O colégio é bom. O melhor colégio público da cidade. Como ele, os outros pais também estavam a caminho. E os professores ficavam com os alunos até seis e meia, por segurança, para não deixar os alunos sozinhos com os monitores, estagiários ainda pouco experientes no cuidado de crianças. Podia pegar um táxi, avistou vários na avenida, mas não adiantaria também. Pra um taxista ficar preso em um engarrafamento deve ser angustiante, imaginava. As buzinas continuavam soando. E soavam irritantes. Teimosas. Puxa vida! Eles poderiam parar por uns cinco minutos que fosse.

Márcio dava passadas largas. Agora sentia o suor escorrendo por dentro da camisa. Era outono. Nessa época os dias eram quentes e as noites frescas, senão frias. O ar gelava a ponta do seu nariz. Precisava andar mais rápido. Sua coxa latejava e logo seu pé começou a doer. De quem tinha sido a ideia de obrigar os funcionários a usarem sapatos? Sapatos, caramba! Sapatos! Em que século estavam? Vinte anos que ninguém mais usava sapatos! Como ele, várias pessoas também caminhavam na mesma direção. Como ele, elas iam do centro para os bairros residenciais. Fazia anos ninguém mais morava no centro ou nos bairros industriais. Depois da Lei Nacional de Zoneamento Urbano Racional as pessoas precisavam se deslocar de um lado a outro da cidade para trabalhar. Devia marcar logo a consulta com um ortopedista ou algo assim. Vinha fazendo os exercícios laborais que o técnico em medicina do trabalho da Fruit Co. recomendara. Duas vezes ao dia, sempre que fazia a pausa de dez minutos para ir ao banheiro, tomar um copo de água e esticar os ossos. Resolvera as dores nas costas e nos pulsos, mas apenas amenizara as dores nas pernas. Suas varizes pareciam ter vida própria, como se se mexessem dentro dos músculos e ao redor do seu fêmur. Gustavo queria tanto ver o jogo de hoje à noite. A luz poderia voltar. Mas e se a estação de luz estivesse em chamas? Quanto tempo levaria para ser consertada? Devia correr. Não vai dar, conclui, depois de forçar levemente a perna, como se acertasse a passada.

Não, se começar a correr é bem capaz de todo mundo querer também. Mas foi só ele pensar nisso que notou do outro lado da rua dois jovens correndo, e atrás deles um grupo de três ou quatro pessoas que gritavam pega, pega, ladrão, pega, mata. Escutou um tiro. Um dos guris cai, outro tiro, outro guri cai. Vivas ecoam. Aplausos. As buzinas fizeram coro. Caramba! Anos que não via algo assim, desde que tinham proibido policiais e civis de portarem armas de fogo. Pensou em parar. Melhor não, Gustavo devia estar esperando. Ele estava esperando tanto por aquele jogo – o time da cidade estava nas oitavas-de-final do campeonato sul-americano de vôlei. Provavelmente o jogo seria adiado, já que a cidade estava sem luz. Sem falar no campeonato mundial de futebol digital.

A maioria das lojas estava já fechada. As últimas, fechando. Padarias e lanchonetes ainda teimavam em continuar abertas. Torciam para que a luz voltasse talvez. Ninguém teria visto as bolas de fogo? Viram, claro. Toda essa gente na rua, como ele, andando de um lugar a outro. Os carros apressados na sua lentidão. A administração central deveria estar resolvendo, alguém disse. Com certeza, respondeu outro. É o que eles fazem, resolvem problemas. Um asteroide. Sim. Chuva de asteroides. Não havia outra explicação racional. As rádios estão fora do ar, um terceiro gritou. Continua tentando aí, um comerciante na porta do seu estabelecimento gritou para dentro. Não é possível! Justo hoje! Justo hoje, concordou mentalmente Márcio. Justo naquela hora…

Pelo menos os carros iluminavam as ruas. Como seria sem eles? Chegou a uma esquina. Os carros se entrelaçaram de uma forma que será muito difícil se organizarem sozinhos, sem a ajuda especializada de algum guarda de trânsito. As buzinas prosseguiam. Mãos de motoristas para fora das janelas gesticulavam. O de trás pedindo que o da frente saísse do caminho, mas o da frente não podia sair porque tinha outro que também estava na sua frente, que estava impedido por outro carro atravessado do seu caminho que ia em sentido contrário, que estava bloqueado por um carro atravessado à sua frente, também impedido de prosseguir porque um carro estava na sua frente e não se movia. No futuro as pessoas não poderão ter carros. Não dará certo cada um com seu automóvel. Se ele fosse presidente do governo era isso que iria propor ao parlamento: chega de carros; vamos investir em ônibus, trens e bicicletas; motos, talvez. Fungou o riso. Quem ele achava que era? Mal conseguia chegar no colégio do filho. Os pés inchados latejavam dentro do sapato. Gustavo devia estar preocupado com pai.

A três quadras da escola. Sim. Mais três quadras. Na próxima a rua se tornava secundária, e ficaria distante das buzinas e gritos. Na esquina à frente conseguia visualizar a fila de carros que se formava para entrar na via principal. Alguns conseguiam sair e tomar vias secundárias, mas para apenas voltar a cair depois em uma via principal engarrafada. Não tinha saída, aparentemente. A cidade havia sido projetada para que todas as vias secundárias caíssem em vias principais. Era um labirinto com apenas uma saída e muitas entradas.

Se aproximando da escola as buzinas soavam como um zumbido distante. As sirenes evaporavam, conforme iam ficando distantes, para logo ressurgirem, agudas, ao se aproximarem. Os helicópteros eram pássaros que perderam a direção para o sul e ficavam andando de leste a oeste. As ruas por ali estavam calmas.

Um grupo de pais estava no portão principal. Tudo estava às escuras. O grupo discutia. Quebra! Meu filho! Invade! Derruba! Chama a polícia! Sequestraram meu filho!

“Sumiram com nossos filhos, pra onde esses putos foram?”, um pai. “Vamos ligar pra polícia!”, outro sugeriu. Os celulares ainda estavam mudos. “Sem sinal de internet” também, um pai com uma tabuleta eletrônica avisou. “Vamos derrubar!”, entoaram em coro.  

Juntos, um pequeno grupo começou a forçar o portão de ferro cadeado. Logo as barras que o ligavam aos pilares de concreto começaram a trabalhar, trincando o cimento, e em poucos minutos o alto portão verde veio abaixo com um grande estrondo e uma salva de palmas.

Entraram. Alguns estavam com lanternas. Procuravam algum aviso na porta principal. Nada. Ela cedeu com poucos chutes. Para Márcio era improvável que as crianças estivessem lá dentro, já que tudo parecia deserto. Não tinha sinal de vida ali, e se estivessem mesmo não teria porque estarem trancados pelo lado de dentro. Pra onde teriam ido? Poderiam ter deixado algum aviso. A menos que tivessem levado as crianças justamente com o objetivo de não deixar rastro. Pensando bem, não tinha visto nenhuma criança na rua – desde a Lei Nacional da Infância Produtiva, as crianças passavam o dia todo na escola, dos dois aos dezoito anos. Que horas deveria ter acontecido aquilo? Márcio relutou em entrar. Esperou que a maioria fosse e iluminasse o caminho.

A fraca luz dos sinalizadores de emergência proporcionava alguma luz aos corredores.  Não tinha ninguém ali. Pais e mães gritavam o nome dos filhos. Pra que faziam aquilo? Vamos olhar no ginásio, sugeriram. No auditório, outro falou. Alguém já viu o pátio, um terceiro quis saber. Márcio viu os pais se espalharem pelos corredores, enquanto ele caminhava devagar. Os pés doíam ainda. A perna latejara tanto que parecia ter parado de doer, anestesiada.

De volta à frente do colégio. Os pais conferenciam. Para onde teriam levado as crianças? Poderiam perguntar na vizinhança. Deveriam ter avisado os pais se estavam planejando levar as crianças para outro lugar, para protegê-las do que quer que estivesse acontecendo. Mesmo depois do fim das liberdades individuais, jamais filhos tinham sido tirados dos seus pais depois que a eles eram designados no primeiro ano de vida, a menos que a criança estivesse sofrendo maus-tratos. Mas casos como esses tinham virado lendas depois do desenvolvimento do implante cerebral tranquilizador. As crianças com tendências violentas eram retiradas dos pais já nos primeiros anos de vida, quando o gene do comportamento destoante era identificado, e enviadas a um centro de cuidados especiais, onde ficariam sob cuidados de especialistas até derem desenvolvido maturidade cerebral para o implante.

A delegacia mais próxima, alguém sugeriu. Deveriam ter informações. Uma mulher que morava por ali disse que a delegacia regional tinha sido fechada e que a mais próxima só no bairro novo, pelo menos uns sete quilômetros adiante. Alguns pais estavam de carro e iriam para lá. Os outros afirmaram que iriam para casa esperar por notícias. Márcio não sabia o que fazer. Esperar notícias de quem, por onde, já que os telefones estavam mudos? Quem sabe Gustavo já estivesse lá, mas se eles tinham mesmo sido levados por alguém do governo, talvez estivessem em algum abrigo e não em casa.

Ele já ia saindo, vendo os pais se dispersando, meio ainda incerto da decisão que tinha acabado de tomar, cogitando pegar a bicicleta e ir até a delegacia, quem sabe lá tivessem mais informações. Deu meia dúzia de passos quando um chiado nos alto-falantes chamou a atenção de todos. Aquelas caixas não eram utilizadas desde as primeiras rebeliões federativas nos anos dois mil e trinta. Uma voz feminina se identificou como falando em nome da administração central. Pediu calma aos moradores da cidade, tudo estava sob controle. As autoridades estavam cuidando do fogo que tinha atingido as estações de energia e comunicação, tudo voltaria a funcionar assim que possível. Todos pararam para ouvir. Carros pararam de circular, e de cabeça para fora, motoristas atentos escutavam a mensagem.

– Vocês devem estar preocupados com as crianças. Não fiquem. Elas foram confiscadas para o bem-estar delas e de todos os cidadãos. Serão devolvidas aos cuidadores assim que a situação volte ao normal. Todos devem ir para suas casas e aguardar novas instruções.

“Que bom”, Márcio ouviu alguém exclamar. “A administração central sabe o que faz”, a mulher concluiu e segui caminhando. Márcio fez o mesmo. Será que passariam o jogo para as crianças? Gustavo ficaria muito triste se o perdesse.

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