Profecias virtuais, de mÜller J.

Profecias virtuais

 

Jovem e dependente. Não consegue se livrar de um vício solitário que consume lentamente o tempo de sua vida; um vício que ele mesmo não reconheceria então como parte íntima de sua rotina diária. Tablet ou celular, na ocasião de estar fora de casa; em domicílio, onde passa a maior parte do tempo, nem são cabíveis maiores descrições acerca de sua fixação. Simplesmente permanece o tempo todo na frente da tela iterativa e reluzente de seu notebook de última geração. Não abre mão da conectividade dos modernos dispositivos eletrônicos nem mesmo durante as refeições; dá um jeito, come com o prato no colo ao mesmo tempo em que clica entre uma garfada e outra. Banho? De vez em quando, a cada 4 ou 5 dias, geralmente. Até mesmo ao vaso permanece conectado; inclusive, acabara de instalar um roteador extra dentro do lavabo para não ter problemas ao compartilhar momentos únicos e desinteressantes.

Seus pais, preocupados, sabem que passa muito tempo ligado à internet, mas nada fazem para mudar aquela situação, já que o jovem se torna extremamente agressivo quando questionado sobre esse assunto em particular. No mais, pensam: “o que poderia acontecer de mal a ele? O futuro chegou. Hoje todos devem navegar e dominar o mundo virtual. Se ele fica muito tempo plugado na internet, bem, se é isso que ele gosta de fazer, talvez possa lhe trazer alguma vantagem na vida, não?”. Talvez…

De fato, desenvolve várias atividades na rede de maneira astuta. Interage com pessoas dos mais variados cantos do mundo. Possui noções de diversos idiomas e até certas habilidades de hacker. É aficionado pelas redes sociais. Nunca faz logout. Está conectado ao universo virtual de milhares de pessoas. Todos os dias, segue várias figuras ilustres e também é seguido por um bocado de gente que, vez ou outra, possui determinado grau de semelhança com seu comportamento. Sente êxtase em atuar como um “canal de comunicação” na web, isto é, em compartilhar informações independentemente do nível de importância do conteúdo. Pode ser algo interessante, uma manchete da última hora ou simplesmente uma bobagem qualquer; o efeito dos cliques, chats, comentários, curtidas e compartilhamentos, desencadeia descargas sobre seu cérebro, quiçá doentias. Nem mesmo quando submetido à terapia psicológica ele consegue explicar coerentemente o que sente e qual é a importância que a internet tem sobre a sua vida. Um tema polêmico, recheado de conteúdo para teses e dissertações acadêmicas da área.

Passam-se anos e mesmo tendo finalmente adquirido a consciência de que o tempo desperdiçado nas redes sociais atrasa sua vida e não lhe proporciona muita coisa verdadeiramente concreta, ele não consegue desligar-se delas, nem por um instante sequer. Hoje, já se foi sua juventude. Beira quase os quarenta e não se relaciona com ninguém; trabalha sozinho, em casa, na frente do computador, numa espécie de consultoria online para serviços de atendimento burocrático entre clientes e empresas; um trabalho chato, que não lhe rende muita remuneração e ainda gera frustração, vazio e apatia em seu espírito. Seu pai agora encontra-se debilitado por uma grave doença degenerativa e sua mãe é uma alcoólatra depressiva. Infeliz, ele deseja mudar sua vida, mas não consegue se desprender daquela tela e fazer outra coisa; alguma coisa; qualquer coisa; simplesmente romper as amordaças virtuais que se materializaram o suficiente para se tornarem reais e comprometer a sua vida.

A situação torna-se crítica após o falecimento de seu pai. Mesmo durante o velório, lá está ele sentado bem em frente ao caixão aberto, de olhos fixos no celular. É nesse momento singelo que um transtorno psíquico agudo toma conta de sua pessoa, quando ele então percebe o quão insubstancial é a sua vida diante daquela situação. Seu pai, gelado, está esticado logo ali no caixão, mas ele não consegue sentir nada, apenas compartilha mecanicamente aquele fato com seus milhares de seguidores na rede, pessoas que não o conhece de verdade e que, além de um breve comentário ou frase vazia de compaixão, nada lhe acrescenta. Num súbito ataque de fúria diante de todos ali em luto, ele se levanta e despedaça o aparelho no chão com um misto de raiva e qualquer outro sentimento frio e degradante, aprisionados por anos a fio.

Inicia-se então uma dura fase de reabilitação. Começa a consumir coquetéis pesados de drogas psicotrópicas. Se livra de todos os eletrônicos portáteis, restando apenas seu computador desktop em casa, para trabalhar. Com muita dificuldade, passa a controlar minuciosamente o tempo em que permanece conectado à rede, diminuindo-o significativamente ao longo de alguns meses. É difícil ficar longe do mundo virtual, o seu mundo; afinal, tudo o que fizera na vida está lá, não possui nenhuma realização terrena significante e palpável, não tem amigos próximos, apenas virtuais. Agora, pelo pouco tempo em que permanece online, fica anestesiado, tranquilo e sereno. Mas quando se desvencilha das tecnologias, torna-se inquieto, nervoso, impulsivo, repulsivo, tal como qualquer abstinência relacionada às substâncias químicas mais ferrenhas que existem por aí.

Foi então que, num certo dia, algo curioso acontece. Conforme navega com um de seus avatares, vê uma notícia nas redes que lhe chama a atenção: a queda de um avião comercial no Mar Mediterrâneo e a morte instantânea de todos os seus ocupantes. Em sua rede, certas pessoas compartilham as notícias daquela tragédia horrível e fazem comentários que lhe parecem um tanto quando bizarros: gente questionando o que havia acontecido, palavras confusas, desesperadas, desnorteadas e desconexas, idiomas estranhos e desconhecidos, comentários incompreensíveis pelo teor publicado. Tempo esgotado. Ele desliga o computador a contragosto e sai de casa para comprar cigarros, como faz costumeiramente sempre que emerge no mundo real. Talvez a nicotina amenize alguns efeitos da abstinência que sente. No boteco, tudo normal. Sinuca rolando, bebum bebendo e televisão ligada, passando qualquer besteria como de costume.

Um dia depois, após exatamente a mesma rotina, as manchetes dos telejornais no boteco anunciam sensacionalmente um terrível desastre ocorrido há poucas horas: a queda de um avião comercial no Mar Mediterrâneo e a morte instantânea de todos os seus ocupantes.

“Essa notícia está atrasada… Isso aí aconteceu ontem”.

“Claro que não, isso acabou de acontecer. Veja a notícia”.

Ele não acredita naquilo. Provavelmente estão lhe zoando no bar; ali são todos uns malditos bêbados mesmo. Chegando em casa, ele liga a TV. Vários canais transmitem notícias sobre a queda que, de acordo com o que dizem, ocorrera algumas horas atrás. “Não é possível”, pensa consigo mesmo. Burlando sua frágil e recém-adquirida disciplina, ele volta às pressas para a internet e acessa as famigeradas redes sociais, novamente repletas de comentários sobre a notícia daquele mesmo desastre que havia tomado conhecimento no dia anterior, mas que acabara de acontecer. A princípio, não entende nada. Começa então a buscar o link da mesma notícia de ontem, em vão. Em apenas um dia, seu perfil foi transbordado de conteúdos inúteis publicados pela infinidade de usuários conectados a ele nas últimas 24 horas, o que torna dificilíssima a tarefa de achar qualquer coisa específica do passado. Ele então se esforça para tentar lembrar de alguns dos sinistros comentários sobre a notícia, e também das pessoas que os fizeram. Consegue se recordar de uma garota em especial, cuja foto mostrava um lindo rosto que se destacou dentre os demais; na ocasião, havia acessado seu perfil para ver e salvar as imagens daquela adolescente sensual, Svetlana. Ao acessar novamente o perfil daquela moça, comentários e postagens agora lotavam sua linha do tempo. Todos lamentando profundamente a trágica morte da linda jovem bielo-russa, cuja vida fora despedaçada num trágico e violento acidente aéreo no Mediterrâneo.

No limite da loucura, os misteriosos comentários lidos no dia anterior podiam fazer algum sentido metafísico, mas na realidade não fazem sentido algum. Teriam sido manifestações das pessoas que acabaram de morrer na queda do avião? Ontem, porém, todas ainda estavam vivas… Como explicar aquela notícia no passado que anunciara a tragédia presente? Seria uma falha dimensional atemporal que invadiu a  sua rede e lhe permitiu, por um instante, a comunicação com aquelas vítimas no seu perfil? Na sede por uma explicação minimamente racional, ele permanece horas conectado, tal como antigamente, procurando por respostas que nunca poderia encontrar.

Aquele surto abala todo o seu tratamento. Está agora obcecado em compreender a sua profecia virtual e esquece completamente do limite de tempo conectado que havia implementado em sua rotina com árduo esforço e muita autoajuda. Dias se passam sem que ele desligue a conexão. Sem se alimentar. Resolve aumentar as doses cavalares das fortes drogas para tentar controlar a euforia e a afobação que tomam conta de seu estado emocional abalado. Passa a se culpar por não ter feito nada perante a profecia que havia recebido; poderia ter verificado a fonte daquela notícia em outros canais; seria capaz de perceber que o avião não havia caído ainda e alertaria as companhias aéreas e os passageiros. Evitaria a tragédia?… Ou seria considerado apenas um doente com um boato macabro? Ninguém acreditaria nele. Seria taxado como louco. O avião cairia do mesmo jeito e, caso houvesse comunicado alguma coisa em relação ao desastre antes de sua ocorrência, poderia até mesmo ser considerado como um suspeito terrorista. Sua vida nunca mais seria a mesma. De qualquer maneira, depois desse acontecimento nunca mais será. Não era exatamente isso que tanto almejava: transformar a sua vida?

Algum tempo depois, ele desiste de procurar provas ou indícios daquele estranho fato. Fraco e entorpecido, ele não sabe se tudo aquilo foi real ou apenas fruto de sua imaginação. Uma intuição, ou uma inexplicável previsão do futuro. Perguntas sem resposta inundam sua cabeça doentia e atormentada. Fisicamente, também está um lixo. Fedorento e desnutrido. Sua mente está novamente dentro de uma prisão virtual, outra vez amordaçado, esgotado, ao ponto de desistir de tudo.

De repente, ele nota que começam a chegar vários comentários direcionados a ele nas redes sociais em que frequenta. Pessoas elogiando-o. Saudando-o. Dizendo que estão com saudades. Que sentem sua falta. Colocando fotos dele, postadas no passado. Despedindo-se. Rezando. Vários de seus seguidores começam a lamentar sua triste partida. Ele lê tudo aquilo caquético e não consegue mais desvencilhar a realidade da loucura. Tampouco consegue responder qualquer um daqueles comentários; não há palavras a serem tecladas, não consegue nem anunciar que está vivo e que se trata de um engano por parte de seus fãs. A nova profecia desaba como um enorme peso em suas costas, um que ele não consegue suportar; não há mais forças para continuar. Seria o anúncio da sua desistência, da derrota depressiva na vida para a dominação inconsciente de uma rede de informações em que tudo se acredita e pouco se questiona. Um sistema virtual que o controla contra sua própria vontade.

Ele vê sua última e mortal cartela de comprimidos sobre a mesa, ao lado da tela pulsante de seu computador. Sua mão treme ligeiramente. Ele pega a cartela, destaca todos os comprimidos e toma todos de uma só vez.

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