Apenas por uma membrana, conto de Pedro Silva

Apenas por uma membrana 

 

Tudo o que direi se passará no Brasil.

Não posso especificar o ano, mas saberão claramente que se dará numa época na qual os fatos aqui relatados poderão ser tratados como normais. Os personagens de fato existiram e eu mesmo os conheci. Infelizmente nunca soube que se buscavam, ou teria feito algo para auxilia-los. A dor às vezes separa-se da felicidade apenas por uma membrana.

Não sou ninguém que conheçam (sejam vocês quem forem ou onde estiverem). Ainda não nasci, escrevo de um tempo que não chegou e em língua todavia aguardando ser inventada. Por isto mesmo, perdoem-me eventuais erros de tradução ou anacronismos. Tentarei ser fiel aos fatos pois, como um filho que não houve, hoje os queria como pais. Os nomes em nossa época não se verbalizam. Todos nós temos um cheiro único, inalterável e os homens de onde falo se reconhecerão apenas por este aroma. Assim, de modo a explicar em texto (para vocês acostumados com palavras em letras maiúsculas definindo quem é Augusto e quem é Moacir), os chamarei apenas de Ele e Ela.

Muitas coisas hoje valiosas e intangíveis ganharão valor comercial quando esse tempo chegar e Ele era dono de uma fábrica que vendia sonhos. A estrutura era simples: um monte de tubos, cabos e luzes que misturavam estímulos eletroencefálicos coletados através de eletrodos de hidrogel de alginato e os comprimia em vapores que depois eram vendidos envasados em frascos coloridos. Coisa bastante boba, mas era com isto que conseguia o dinheiro que bastava apenas para vencer o mês. Comprara a fábrica de um velho à beira da morte, mas as vendas iam em baixa e o maquinário estava ultrapassado. Depois das sucessivas crises monetárias pouca gente tinha ainda qualquer dinheiro poupado para investir em invenções fantásticas e a quantidade de sonhos zero quilômetro que se colocavam no mercado era muito pequena. Ainda no primeiro ano Ele foi obrigado a demitir funcionários, fechar a sessão REM (sua menina dos olhos), desmontar a máquina de delírios infantis e revender apenas sonhos reciclados ou com pequenos defeitos que eram comprados por gente mais pobre (estas sim agora felizes pois encontravam no mercado sonhos ao seu alcance). Eventualmente alguma reclamação aparecia quando um cliente acordava no meio da madrugada. O problema mais grave foi quando vendeu para uma egocêntrica cantora de rock um longo sonhar que se passava dentro de uma ópera e ela foi à justiça postular que pretendia o estrelato, mas não aquele. No geral este conjunto onírico de segunda mão era o que sustentava sua expectativa de recuperação da indústria decadente.

Já para apresenta-los a Ela, talvez caiba uma preparação. O que Ela faz não é essencialmente bom ou mau nesta época em que escrevo. Sei que no passado houve quem condenasse pessoas que eram apenas quem poderiam ser. Parece-me que, para vocês, ser o que se é pode não agradar aos que não o são. Por isto, prefiro adverti-los: nada de julgamentos maniqueístas para com a doce Ela, por favor. Sua espécie era incapaz de gerar energia a partir da queima da glicose como a maior parte dos habitantes do planeta, por isto sugavam emoções humanas que disparavam os mecanismos certos em seu cérebro, iniciando a metabolização de tudo que precisassem para sobreviver. Não era uma pessoa má, absolutamente. Muitas vezes ela mesma estimulava grandes eventos de paixão e êxtase nos povoados onde se instalava. Assim aumentava a capacidade de produção daquela mina de sensações que usava de comida. Morava em determinada cidade apenas enquanto ali durasse algo que lhe fosse interessante. Depois, secas as reservas, largava o garimpo escasso e migrava em busca de amores, esperanças e novas fronteiras. Não havia nada que amasse mais do que experiências intensas, exóticas. Funcionavam como gasolina aditivada perto da maior parte dos humanos (como eu) que se configuravam apenas por essa coisa medíocre que percebemos sem poder voltar atrás, pausar ou saltar logo para o final.

Rumavam para um total desconhecimento mútuo não fosse a feliz coincidência que arrebentou impossibilidades e os ligou. Naquele sábado xoxo de nuvens baixas e bafo quente, foram ao cinema sozinhos, uma dezena de quilômetros de distância separando-os. Escolheram o mesmo filme, com longos diálogos. Frequentemente o protagonista fitava os assentos da sala e dizia alguma frase emblemática, como na cena final:

– O que você olha, papai?

– Os idiotas, filha.

– [garota também se vira para a plateia] mas você sempre me disse para não olhar para eles.

– Mas agora cheguei à conclusão de que é importante, pois será a última vez que essa gente irá me ver.

– Mas e se eles também vierem ao cinema amanhã?

– Daí não serão mais esses. Nunca se é por dois dias a mesma pessoa.

Ele e Ela contemplavam vidrados os olhos do protagonista, ouviam aquelas palavras. Houve um longo close final. Congelaram suas pupilas nas dele, unindo-se através do ator como em um vértice improvável. Acho que isto vocês conseguem entender. Imaginem a lua: sendo ela um único objeto, qualquer par que a contemple (um em Porto Alegre, outro em Moscou) estará magicamente unido por um triângulo imaginário, afinal olham para a mesma lua. E foi isto que ocorreu. Passando pela córnea do personagem, Ele e Ela se cruzaram. E se viram. Ela queria saber como a cena continuava, mas sua visão parecia embaçada, enxergava apenas aquele rapaz que, ainda que estivesse na tela, não parecia fazer parte do filme. Olhou pro lado, ninguém mais notava nada estranho, aparecia apenas para ela. Teve vergonha de gritar. Já Ele não queria voltar para o filme. Depois de ver aquele par de olhos verdes, desistiu de qualquer outra forma de arte.

Regressaram pra casa sem saber o que fazer com a novidade. Dia após outro os flashes das lembranças faziam com que uma espécie de paixão nascesse. Depois uma obsessão e, por fim, um amor platônico. Claramente um outro alguém os contemplou por alguns segundos e o que sentiram naquele momento tinha a magia dos fatos inesquecíveis.

Passados alguns anos, a fábrica de sonhos faliu, desmontada pelos novos tempos.  Ela desistiu de alimentar-se de momentos gigantescos das existências alheias e passou a fotossintetizar tudo que pudesse. No mais, simulava suicídios, términos de namoro, assaltos após os quais devolvia o patrimônio às vítimas, tudo porque, transtornada pela aparição no cinema que se assemelhava a uma possibilidade de felicidade real, não mais encontrava saciedade naquele fast-food vampírico dantes. Insistir na vida regular era atormentador. Ambos tinham certeza que, durante o filme, naquela última cena, algo diferente havia acontecido; não importava em qual poltrona estivessem, tampouco a quantas léguas distavam-se, era insuportável fingir que não ocorrera.

Ele recomeçou a vida depois da fábrica fazendo em casa, artesanalmente mesmo, pequenos pesadelos para serem vendidos como brincadeiras ou trotes. Até se divertia um pouco quando colocava alguns palhaços macabros ou grandes quedas sem fim nas quais, ao morrer, as “vítimas” acordavam. Ela eventualmente regressava à vida antiga e, mesmo sem gostar dos esportes, ia a finais de campeonatos sugar estádios e arenas lotados de paixões de alegria e derrota.

Certo dia, tiveram a ideia excelente e única: obviamente somente se encontrariam uma segunda vez voltando ao cinema, àquela sala retangular de projeções luminosas que originalmente os aproximara. O filme já havia saído de cartaz há anos. Voltaram portanto às sessões dos mesmos horários, no mesmo dia, em outros filmes do mesmo diretor, com os mesmos atores, comprando pipocas nos mesmos lugares mas nada parecia funcionar. Aparentavam-se fadados à desistência. E isto os desesperava: estaria o outro ainda tentando? Porque qualquer olhar concomitante dependeria disto. Seriam ainda capazes de se enxergar? Uma sensação de luto ocupava-os nestas horas.

Atravessada a paixão inicial desta lembrança de terra prometida, o mundo seguiu e eles encarregaram-se de apagar a ilusão do reencontro. Pouco a pouco, a vida embranqueceu. Foi então que os conheci. Aqui, cabe uma nova explicação. Vocês talvez estejam acostumados com as casas que existiam até a Era de Sísifo, onde as pessoas moravam em um espaço delimitado que, ou lhes pertencia, ou lhes estava sob usufruto individual. Neste momento do qual escrevo para vocês, todas as moradas passaram a ter cômodos flutuantes, que se compartilham conforme o uso. Exemplifico: imagine um elevador. O que é o elevador senão um cômodo que se move de andar em andar? Quando se entra num elevador no sétimo andar nada há de diferente quando comparado com a entrada no terceiro ou quarto pavimentos. Trata-se do mesmo cubículo, que apenas se move de acordo com a necessidade dos demais. Com a escassez de recursos naturais e a total extinção da oitava lua de Esférides (de onde por muito tempo se extraiu o que precisávamos por aqui) não restou outra opção que não construir moradias menos individuais. Por isto, onde (quando) nossos protagonistas vivem, a mesma lógica dos elevadores aplica-se às cozinhas, banheiros, salas de estar, lavabos, escritórios funcionais e outros cômodos da casa. Aperta-se um botão e espera-se. Dali a pouco, chega a sua cozinha. Por vezes, com algum outro morador que lá estava a projetar seu ultrassom sobre um par de ovos ou a jogar alta frequência na crosta dos pedaços de carne. Daí ambos se olham com cara de paisagem, diz-se “boa noite” ou “que calor hoje, não?” e segue-se a vida normalmente. Com um bom planejamento estatístico da quantidade de cômodos por prédio, tudo isto funciona muito bem. Apenas os quartos são individuais. Porque as noites de sono continuam sendo longas e exigindo silêncio. A questão é que quando uma cozinha ou banheiro destes se locomove por diversos andares, todo um conjunto de tubos necessita se deslocar também. Carregando eletricidade, água, linhas de vácuo. Há toda uma tecnologia. Os cabos de dados impedem, por exemplo, que alguém mova o seu banheiro quando você pressiona o “botão de privacidade”. As fibras óticas permitem que você acesse a sala de estar que estiver mais equipada naquele momento. E quando tudo isso quebra, eu apareço: o rapaz da manutenção.

Sempre que algo quebrava no condomínio d’Ela, eu era chamado. O mesmo valia para Ele. De tanto frequentar a casa de ambos comecei a ouvir as histórias. E enquanto trocava mangueiras, soldava metais ou impermeabilizava juntas, ia me afeiçoando a cada um de maneira singular. Curiosamente, ambos haviam caminhado para realidades similares: tornaram-se atores. Penso que houve algo de psicologicamente interessante nesta escolha. Aquele amor impossível, por mais que soterrado, dava pontadas. Acho que desejaram muito “entrar na tela do cinema”. E entraram. Durante boa parte do dia encenavam vidas que não eram as deles, alegrias treinadas, gestos ensaiados de amor correspondido, viagens não ocorridas, cenários novos, relações inéditas e passagens de vida asperamente distantes de tudo que experimentavam fora dos palcos ou das telas. Em certo momento a profissão tornou-se a melhor droga a se experimentar. Viraram excelentes profissionais. Talvez porque somente dentro daquelas farsas fossem eles mesmos.

Trabalharam em divertir pessoas. Envelheceram sem nunca esquecerem-se.Um dia ela me contou isto tudo. Foi um trabalho longo e notei que lacrimejava sozinha. Perguntei o porquê e fiquei horas ouvindo. Sobre o rapaz amado e nunca visto. Sobre o filme que os juntou por efêmeros segundos. Foi quando pela primeira vez pensei em escrever a história. Quem sabe não os ajudaria a encontrarem-se?

Velhos, contemplavam as rugas no espelho de maquiagem da coxia e viam somente a si mesmos. A fantasia que um dia movera ambas as vidas se apagara, borrada pelos anos. Alegraram plateias de todo o país e, parece, até mesmo do exterior. Tiveram filhos e cães. Engordaram, arquearam as costas, perderam altura. Eventualmente, recordavam os tempos vividos. Ele sorria com as memórias dos anos da fábrica de sonhos e até voltava eventualmente à antiga prática, de modo obsoleto, inventando fantasias noturnas apenas para consumo próprio. Ela não teve do que reclamar durante a vida: a cada montagem teatral bem sucedida, repunha suas energias como num banquete gratuito com as emoções da plateia. Os demais atores se encantavam com os aplausos. Ela os comia. Viveram bem.

Morreram quase no mesmo minuto. O último pensamento d’Ela voltou-se para as plantas recém-colocadas no parapeito da janela. Temia que ninguém as molhasse em sua ausência. Ele pensou apenas no filho mais novo. Tentou lembrar seu nome, mas foi em vão. Deixou uma carta com sua biografia e seus segredos, sua versão escrita da vida antes que a memória se apagasse. Eu fui o primeiro a encontrar este relato porque cheguei ao seu quarto junto com os filhos. Eles não tinham cópia do cartão de acesso, eu sim. Quando li sobre o cinema, tudo se encaixou. Então… eram eles. Eu conhecia a ambos e nunca soube que o eram. Isto tudo por um motivo simples: Ele nunca chorou em voz alta, guardou para esta carta qualquer possibilidade de confissão. Apresentei os filhos de um aos filhos de outro. E comecei a escrever esta história que agora remeto a vocês, no passado. No entanto, notei que carecia de um desfecho. E quis dividir o final que imagino, o segundo exato após suas mortes. O que aconteceria com cada um deles. Pensei que ouviriam uma voz. No ouvido dele, feminina. No dela, masculina. Diria: abra os olhos. E eles abririam.

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