Pérola Digital das Fendas Nascentes, de Rodrick Loneman

Pérola Digital das Fendas Nascentes

Outubro de 2343

Cidade-Estado Superficial de Shisakura, Terra

Shinju observava a paisagem apocalíptica da janela de se quarto, coberta por um plástico transparente e anticontaminante. Graças à rica biblioteca que tinha sobre a história japonesa, a jovem de 11 anos de idade sabia as hipóteses para o planeta Terra ter chegado àquele ponto crítico. Ela tinha centenas de documentos com fotografias e descrições, que apesar de descreverem um passado incrível para ela, eram rigidamente mantidos em suas lembranças sob as ordens de seus pais, para servirem de evidências do que transformou o mundo nesse inferno; e de que nada era por acaso.

-… O céu é preto-fosco, com densas camadas de gases espargidos na atmosfera, que se movimentam sem cessar e assustadoramente. Lembram em muito as nuvens das fotografias antigas. O que mais se distingue na paisagem são as Fendas… o novo sol, partido em pedaços pelo homem. As Fendas são como lesões no tecido celeste, que expelem sangue luminoso; isso, a luz vermelha emanada pelas Fendas é sangue em forma de luz… e eu a acho linda. – disse Shinju, enquanto seus olhos rodopiavam lentamente, seguindo as Fendas surgidas intermitentemente no céu, em pontos aleatórios, num padrão de mudança desconhecido.

Shinju estava em paz, observando o firmamento, ora trocando olhares para o oceano pacífico, ora deixando-se levar pela escuridão das coníferas do arquipélago. Isso porque a Cidade-Estado que habitava, Shisakura, ficava na encosta da montanha Kumotori, ponto natural mais alto de Tóquio. Era possível ver os larícios de galhos apodrecidos e desfolhados cobrindo a base da montanha, assim como as aldeias soterradas por rochas e entulhos, e até várias lanchas vagando calmamente pela lâmina d’água do mar tangencial, precariamente rodopiando junto à espuma e borbotões de sangue, que Shinju sabia exatamente de onde vinha.

– As marcas dos Monstros Urbanos. Eles devem estar por aqui. Papai me avisou… – disse a menina, logo desviando o olhar do fluido cálido por sumo humano.

Dentre os aspectos daquela vista escabrosa para a alma infantil, o mais tentador era olhar o filão urbano, no final do horizonte de estradas ilhadas e pontes sobre o mar. Era uma estrutura famosa no passado; uma cidade em movimento, agora morta pelo mal ancestral. Era uma Tóquio escura, com prédios abandonados, cobertos por plásticos de contenção de perigo biológico, e bairros tomados por construções normais, se não fosse pela imundice sanguinária espalhada por onde as metralhadoras ou os dentes substituíram o pincel. A metrópole erguia-se como uma muralha assombrada, talvez pelos mais mitológicos yureis, talvez não. Shinju sabia da regra de seus pais à restrição de apenas 10 observações de 15 segundos por dia para a cidade abominável, mas o fascínio escondido naquela fortaleza escura a provocava sempre.

Só lhe restavam 13 segundos, de uma última olhada. Suas mãos, antes abaixadas, agora seguravam os beirais da janela. Uma forte pressão cardíaca a invadiu, apesar dos feixes vermelhos continuarem surgindo e desaparecendo. Subitamente, um brilho branco ascendeu o alto de uma famosa torre, em que ela havia estudado num livro de arquitetura: Sky Tree Tower. O brilho permaneceu ocorrendo, numa consonância própria, até formar um significado que ela pôde traduzir pelo estudo de Código Morse que tivera. A frase dizia: “É tudo mentira”. Aquilo a perturbou profundamente, mas desviou os olhos, tentando se focar na cidade; restavam-lhe poucos segundos.

Tóquio parecia estar de baixo d’água, com os raios solares advindos da superfície e penetrando nas camadas submarinas, enquanto iam se turvando e se perdendo, até não poderem mais vencer a escuridão abissal. Shinju sentia que aquela metrópole estava se afogando ao longo dos séculos, em desespero eterno. No lugar dos gritos, apenas gemidos abomináveis; no lugar dos corpos lânguidos preenchidos por sal, apenas silhuetas virulentas em catatonia; no lugar da paz após o afogamento, uma amálgama de medo, solidão e psicose invadiam sua mente; no lugar da beleza onírica dos feixes luminosos, apenas as pupilas diabólicas das criaturas lá presentes… Uma porta se abriu e alguém adentrou o recinto.

X

– Takeshi! Rápido! A Shinju está convulsionando novamente! – gritou Yasu para seu marido, pai de Shinju. Takeshi entrou no quarto da filha e deitou-a ao chão. Tirou todo objeto perigoso da proximidade e fez um sinal de calma para a mãe de Shinju, Yasu. A mulher levou os dedos a um painel holográfico-touchscreen projetado em sua têmpora direita e clicou numa opção emergencial, que liberou um pop-up com um teclado alfa-numérico. Yasu digitou rapidamente o código para “Inanição de Preocupação”. O sistema aceitou o código e corrigiu a retina da mulher, girando rodas metálicas nas órbitas e sincronizando os olhos numa posição estável; Yasu esfriara. Takeshi viu aquilo e fez o mesmo. Apenas a filha se debatia, babando espuma e sangue.

Após 10 segundos deploráveis, Shinju aos poucos se acalmou, até retomar a consciência. Trocara o brilho de fascino dos olhos pela grossa camada de espuma que embuçava a face. Yasu se retirou do quarto, pois sabia da necessidade atual.

– Shinju, de pé em 3 segundos! – gritou o homem impetuosamente.

A menina levantou-se, ainda meio tonta, e forçou estabilidade. Muitas lágrimas ainda escorriam e em seu coração ela apenas gostaria de ser confortada, mas isso não seria possível.

– P-papai… me descu… – Shinju levou um tapa na bochecha direita, fazendo voar espuma e sangue no quarto. Ela se pôs indomitamente na mesma posição e segurou as lágrimas.

– Yasu. Venha. – disse Takeshi de modo sério e com olhos maníacos, enquanto observava a menina. Yasu adentrou o quarto, pôs-se à frente de Shinju e estapeou sua outra bochecha, com expressão desalmada.

– Agora, repita os Deveres do Nuvesuário! – exigiu Takeshi, calmo e assustador. Fingindo a frieza dos pais, Shinju disse:

– Número 1: neutralizar sentimentos para o acúmulo de cloud-data. Número 2: jamais sentir a carne, enquanto é a Protonuvem Computada a lógica fundamental da existência. Número 3: jamais manter contato sinestésico com uma Zona do Caos por mais de 2 minutos e meio.

– Correto… venha filhinha, para a World Wide Web Dimension, porque o nosso admirável Abuto Quano Sama nos espera. – disse Takeshi.

– Eu-eu estou a-apta? – perguntou Shinju, olhando para a mãe, amedrontada. Yasu a olhou firme e disse:

– Você fará 11 anos hoje e finalmente já tem a instrução correta. Sua Transdigitalização pode ser iniciada agora, mesmo com suas negligências… – falou a mulher, fazendo uma incomum careta de nojo. O pai olhou para ela e recebeu a transmissão da feição usada, reproduzindo-a copiosamente, o que fez Shinju desviar os olhos, devido ao medo que sentia das transmissões semi-emocionais compartilhadas.

Takeshi pediu que o seguisse e virou-se na direção da sala. A família atravessou o pórtico do quarto e adentrou a sala nanica, também banheiro e cozinha. Yasu andou até a porta de entrada da habitação e abriu o mecanismo, mas antes se ajoelhou para ficar na altura da filha. A mulher digitou um código diferente na têmpora e uma expressão de “atenção carinhosa” se manifestou em seu rosto. Shinju tremeu com aquele processo biomecânico e novamente desviou os olhos, procurando se acalmar. Aquela falsa face materna a enjoava.

– Filha, ouça-me – disse Yasu, meticulosamente – A você será dada a oportunidade da Transdigitalização e, se seu organismo, emoções, mente e espírito reagirem bem, você receberá um corpo feito de pura informação digital. Só assim poderá viver na Word Wide Web Dimension, onde a harmonia búdica reina entre nós.

– Mas, mamãe… a 3WD é uma meta-realidade criada para permitir ao subconsciente desumanizado a coexistência com esta realidade arruinada. Como essa harmonia pode estar lá, se nem aqui ela existe? – perguntou Shinju. Takeshi, de olhos eclipsados, cerrou os punhos, mas Yasu colocou o braço à frente do homem e explicou:

– Quando Amaterasu nos abandonou, Tsukuyomi, através dos houshis, nos convidou a um novo mundo. Lá, na 3WD, está Tsukuyomi, nos permitindo a Existência Usuária na realidade virtual. Lá não há nenhuma das chagas ou perturbações existentes nesta realidade. Lá nós vivemos no templo sagrado de Inochisakura, e é só isso que você precisa saber. – terminou Yasu, com sua expressão facial codificada esgotada. A menina assentiu com um aceno da cabeça, tremendo.

X

Takeshi pôs cada índex seu em uma têmpora da filha e raios azul-prateados atingiram o interior do crânio. Shinju adormeceu, mas pôde obter fragmentos do trajeto até o local para a Transdigitalização: céu com variações de betume; ar pestilento na atmosfera; medo imanente ao mundo exterior; estradinha envolta por lixo; casebres destruídos com olhares amedrontados vindos da janela… de crianças silenciadas. Em alguns casebres havia um “x” nas portas, feito de fita zebrada. Shinju não sabia o quê era aquilo e procurou olhar as janelas daqueles casebres, buscando por esclarecimento. Um terror a fulminou ao ver silhuetas penduradas no teto, balançando miseravelmente por cordas desfiadas. Ela ficou inconsciente definitivamente.

Quando acordou, já estava num laboratório escuro. Seus pais programavam um computador longo e complexo, embutido na parede da porta de entrada, do chão ao teto. Cabos embutidos no chão saíam de suas CPU’s iluminadas por díodos e iam, através de tubos siliconados, até um imenso ecrã no centro do local. Era um painel de cristal líquido, ultrafino, com 2×1 metros e apagado, mas Shinju viu que sobre os tubos de silicone foram acendendo luzes brancas, uma atrás da outra. Em não menos de 5 segundos o painel acendeu uma forte luz e exibiu um redemoinho energético que emanava um campo de força, tanto dentro como fora do aparelho. Shinju ficou apavorada e se esgueirou para trás, mas percebeu que não havia lugar nenhum para correr: atrás dela só havia uma grossa camada de vidro preto e semitransparente, que dava para o lado de fora do prédio, uma queda de quarenta andares.

– Shinju, ponha-se de frente ao painel. – disse Takeshi. Antes de levantar, a menina surrupiou uma máquina, semelhante a um celular, numa mesa próxima. Ela pôs-se a caminhar, mas a frase advinda do código da Sky Tree Tower veio a sua mente: “É tudo mentira”. No mesmo momento Shinju parou, ergueu a cabeça e a abanou negativamente.

– Onde estão meus carinhosos pais? ONDE ESTÃO?!

– Acalme-se, Shinju. Somos nós… querida. Agora deixe disso e venha. – disse Yasu, pegando uma seringa escondida no bolso de trás de seu traje.

– Não. Não estão. – disse a menina, abaixando a cabeça logo depois e acionando um botão da máquina que roubara. Algo no teto se movimentou.

– Takeshi, pegue-a! – gritou Yasu. O homem correu na direção da menina, vociferando. Do teto, sobre Shinju, uma placa retangular abriu-se e liberou uma katana. Shinju pegou-a rapidamente e utilizou-a contra Takeshi, soerguendo a lâmina vermelha da katana ao alto, que foi aparada pelo antebraço do pai sem maior problema, e rapidamente jogando a lâmina em diagonal para baixo, cortando de lado, na altura do peito, com o afiado gume, decepando o tórax do homem; uma finta perfeita.

Colérica, Yasu correu e acionou no computador a Transdigitalização. No mesmo instante o corpo de Takeshi se dissolveu e uma energia binária saiu dele, demonstrando que era apenas um simulacro de carne. A energia binária, em forma de nuvem de dados digitais, criou uma face antropomorfa de máscara japonesa e jogou-se, num impacto energético, contra Shinju, que girou sobre os ombros e desviou do golpe, mas foi pega pelos cabelos por Yasu, que a jogou contra o campo de força do painel. A katana caiu longe e a menina foi sugada pela força do painel. Ela segurou nas bordas do ecrã, mas sua moral diminuiu quando viu o corpo de Yasu ser dissolvido em gás, para dar lugar a verdadeira Yasu.

– Agora eu entendo o real significado de Nuvesuário. Vocês não são humanos. – disse uma gemente Shinju, segurando com dificuldade. As duas nuvens de informações digitais semi-materiais emitiram ruídos metálicos bizarros e se uniram numa única nuvem de computação materializada, que se jogou contra a menina. O impacto foi tanto para Shinju, que ela soltou a mão direita, permitindo que algumas partes de seu corpo penetrassem na energia cibernética. A dor foi colossal. Vozes podiam ser escutadas de dentro do ecrã. Vozes metalizadas, com teor profano, cantavam uma música diabólica com koto e shamisen, como se a evocassem para dentro. Aquilo só deu mais força para Shinju. Ela tirou forças do resto de seu coração ainda fora da máquina. Com toda a força que restava, puxou-se para fora e virou-se para o outro lado do ecrã, onde ficava o computador e a porta de saída. Segurou nos cabos do chão e rastejou até o fundo do laboratório, onde, numa distância suficiente, ela deixou-se sugar pela energia e jogou o restante do seu corpo na borda do ecrã. O painel se desprendeu do chão e voou contra a parede de vidro do laboratório, caindo do quadragésimo andar, puxando cabos e partes do computador.

Tudo finalmente estava acabado. Ela não sabia de toda a verdade por trás daquele evento, mas do suficiente para permiti-la continuar caminhando. Ao observar seu corpo, quase desmaiou ao perceber que todas as partes sugadas para dentro do painel foram dissolvidas: o braço direito e a perna direita inteiras, um pedaço das costas e do lado direito da face, junto do olho direito; tudo havia desaparecido, dando lugar a imensas poças de sangue no chão. Ela gritou de horror, em choque. Sua consciência estava se esvaindo e ela sentia a morte a levando para longe daquele mundo arruinado, mas ela queria viver!

Num último movimento possível, Shinju se esgueirou até a seringa que Yasu deixou cair ao chão, com um fármaco poderoso dentro.

– Mor… fina. – disse ela, enxergando tudo turvo. As dores nas partes feridas eram insuportáveis para uma criança de 10 anos, mas ela já havia feito 11 e superara todo o passado. Com dificuldade, Shinju pegou a seringa e aplicou uma punção venosa na veia cubital mediana, pois era a mais indolor. Rapidamente Shinju sofreu uma queda na pressão arterial e os batimentos cardíacos foram parando. O ar passou a ser pesado dentro do peito e a dificuldade de respiração cresceu. Shinju ativou um código na máquina-celular. Seus dedos suavam e lentamente seus olhos adormeceram. Ela entrou em coma. Na tela da máquina apareceram letras garrafais da ação configurada: Reconstrução Cibernética.

Alguns minutos se passaram e quando Shinju acordou, se viu dentro de um tubo criogênico, saído de uma comporta da parede do laboratório. Com sofreguidão ela acionou uma alavanca e seu pequeno corpo caiu sem amortecimento ao chão gradeado. Sua mente estava desnorteada. Ela ainda viu os andróides médicos antes de voltarem para suas alcovas metálicas, dentro das paredes. Aos poucos começava a entender o quê acontecera. Tudo veio à tona quando observou que suas partes orgânicas destruídas foram substituídas por um tecido cibernético, engatado por máquinas inteligentes, que simulavam a replicação celular. Shinju, retomando as forças, caminhou na direção da vidraça destruída, pegou a katana do chão e vestiu um roupão branco, amarrando o laço frontal.

Lá de cima, do quadragésimo andar, Shinju podia observar melhor a tenebrosa Tóquio, com todo seu assustador horizonte urbano, advindo da Zona do Caos. Apesar de saber sobre a nova humanidade e sua impossibilidade em sorrir, ela sentiu que sorrira; era a primeira vez na vida. Shinju ficou ali, olhando para Tóquio, durante 15, 30, 75, 150 segundos… e nada. Nada aconteceu.

– “É tudo mentira.” – ela repetiu, agora consciente de tudo. Shinju olhou para a Sky Tree Tower com um olhar de mistério e esperou. Algo iria acontecer; tinha que acontecer. De repente um padrão de brilhos surgiu, formando uma frase; frase esta que já dizia qual seria o seu destino.

Agora você sabe… Lembre-se, Ciborgue… Os Sobreviventes de hoje… serão os Mestres do amanhã… Bem vinda a Era do Caos.”

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