Conto A flecha, por V. H. de A. Barbosa

A flecha

 

A ideia de uma coisa não acompanha o desgaste do tempo, isso é certo. Quando entrei na sala, deparei-me com o menino de tantos anos atrás, os cabelos bagunçados, o pescoço ereto e o nariz adunco. Uma beleza rara, que só veio a se aguçar com os anos que se passaram. Aos poucos, contudo, a realidade veio, em ondas, definindo-se em meio à turvação, quando o menino foi substituído já pela figura do homem, com suas poucas rugas e o ar de maduro.

Segurava nas mãos uma fotografia nossa. Ciudad de Simón Bolívar, 2068, creio, não tínhamos mais que vinte e tantos, nós três. Não sabia que me casaria com algum dos dois, mas acabei por ficar com o melhor amigo de Fernand. Agora, Fernand estava na minha sala, esquadrinhando a foto e provavelmente rememorando aqueles bons momentos, como confesso já ter feito tantas outras vezes.

“Ele sempre prezou sua amizade, Fernand. Você era seu melhor amigo”, me anunciei, interrompendo-o.

Ele me encarou demoradamente. Não me via há anos.

“Amália…”, notou, em tom grave, mas depois sorrindo, “… continua bela como da última vez”.

Devolvendo o porta-retrato ao lugar, caminhou em minha direção.

“Sinto muito não ter comparecido ao funeral. Não me perdoo. Compromissos me tomaram o tempo e isso é imperdoável. Espero consertar esta falta”, desculpou-se, prosseguindo: “nosso afastamento foi um duro golpe para mim. Apreciava a companhia dele”.

Abraçou-me.

O cheiro, a textura da pele. Igual. Decidi que ele estava sendo honesto.

“Ele não lidava bem com o afastamento. Trabalhei para que se reconciliassem, mas…”, não consegui prosseguir, traída pelo que viria a proferir.

“Não se pressione, querida Amália. A fotografia que eu olhava agora mesmo – e apontou para o canto da sala de estar – belos momentos aqueles. Lembra da roda gigante? Do Jockey? Da guerra de travesseiros?”.

Não pude conter o riso.

“Aquele hotel não deve ter se esquecido de nós três!”.

“Só o hotel? A cidade inteira deve ter se reunido e proibido nosso retorno, ora! Já consigo imaginar os cartazes de ‘Procurados’ com a imagem de nós três”.

O mesmo sorriso. Um longo suspiro me fez arfar. Tive de desviar o olhar.

Percebendo a hesitação, ele elucubrou:

“Sabe. Algumas memórias se apagam com o tempo, felizmente ou infelizmente, ainda não me decidi. Elas insistem em se esconder em cantos recônditos de nossos cérebros, enquanto outras parecem vívidas, como que ocorridas ontem mesmo. Não concorda?”.

Concordei.

“Venha ver a casa”, convidei.

“Trabalho fantástico o que fizeram aqui”.

“É um tanto quanto difícil perambular por aqui. Cada cômodo, cada canto, tudo me faz lembrar dele”.

“É como eu disse”.

“Às vezes me pego esperando ele para o jantar ”.

Fernand fixou sua atenção num ponto qualquer do corredor.

“Surpreendi-me com seu convite, Amália, não imaginei que fosse algum dia precisar de mim e, bem, aqui estou. Ele não concordaria com isso, devo alertá-la”.

Seu tom era tranquilo, temeroso até. Por alguma razão fiquei feliz com aquele devotado respeito ao meu marido.

“Estou ciente disso, Fernand. Acredite, já me torturei repetidamente remoendo o assunto. Ele não concordaria, é verdade”.

“Então?”.

“Não por mim, mas por você”.

“Por mim?”, questionou, surpreso.

“Sim, não é segredo a desavença que tiveram por causa do projeto… veja, esta era a sala de leitura, ele passou muito tempo aí nos últimos meses”.

Fernand encarou a poltrona como se a qualquer instante seu antigo amigo fosse se materializar sentado no estofado.

“Não há mentira no que diz, mas não posso dizer que se trata da verdade. Ele era um homem sábio, e não quis levar os créditos por sua contribuição”.

“Talvez seja isso mesmo, Fernand. E não é a toa que decidi chamá-lo”. Olhei-o por alguns instantes, sem disfarçar o constrangimento: “você… você aceita um chá?”.

“Claro”.

Quando retornei à sala das visitas, ele voltara a se entreter com a fotografia de nós três, sentado ao sofá.

“Também sinto a presença dele nesta casa, Amália. E sei de sua dor”.

Sei que ele sabia, sei que imaginava a falta que me fazia o homem, seu amigo, levado tão prematuramente. Que imagem Fernand tinha de mim? Posso imaginar que ele tinha a perspectiva de uma mulher chorosa, remoendo os cacos de lembranças de uma vida a dois. Uma alguém órfã de seu amor.

Se sabia ou não, estava ali por convite meu.

“Estamos transformando uma era, eu e minha companhia, e digo isso sem ser pretensioso, Amália. Você – e segurou meu braço, terno – não precisa chorar, a não ser pela alegria de ouvir novamente a voz dele. Não precisa varar as noites pensando na falta que a respiração ruidosa dele fazia, deitado ao seu lado. Houve um tempo em que era preciso esquecer. Agora eu pretendo criar um tempo sem essa necessidade. Um tempo de lembrança e de alegria”.

Fez uma pausa, não sei dizer se estratégica, enquanto eu vasculhava os bons momentos, fiapo por fiapo.

“Contudo…”.

“O que é, Fernand?”.

“Pelo respeito que nutria a ele e por tudo o mais… bem, não quero passar a impressão errada. Você confia em mim e me chamou aqui…”.

Ele estava visivelmente desconfortável. A ansiedade transbordava, me contagiando Antes que pudesse entendê-lo, ele suspirou e pareceu condoído:

“Só posso dizer que, embora possua a chave para sua felicidade, tenho o desejo sincero de não usá-la como pretende”.

Sentia-me amarga. A voz que saiu de mim era sem vida.

“Fernand, vamos prosseguir, é o que quero”.

Ele se virou e já ia balbuciando algo, mas desistiu depois de notar que meus olhos miravam o chão. Caminhou contrariado até a porta, abrindo-a vacilante.

Na soleira, uma garota de quinze ou menos aguardava pacientemente, uma palidez algo artificial e o semblante sem dizer coisa alguma.

“Entre, Sonja”, solicitou Fernand, pontuando um esquisito sotaque ao proferir o nome. Era uma ordem.

A garota deu alguns passos e atravessou a porta, olhando brevemente para seu derredor.

“Ela é…?”.

“É sim. Fabricação russa”, respondeu Fernand.

Uma robô. Não eram comuns em formas tão humanas, e me senti fascinada pela beleza juvenil daquele modelo.

“Boa tarde, senhorita Amália. É um prazer”.

“O prazer é meu…”, respondi, incerta.

Ela pareceu refletir sobre aquilo e se limitou a olhar para Fernand.

“Vamos prosseguir então”, ele se lamuriou.

Levei-os para o hub.

Sonja andou vagarosamente até o core e fez uma série de conexões neurais com a rede. Seus olhos se fecharam e ela pareceu murchar, pendendo ligeiramente os ombros para baixo. Olhei confusa para Fernand.

“Não é nada demais. Ela se conectou, está buscando as fontes de que precisamos”.

“Não entendo bem como isso funciona”, revelei.

“E nem precisa. Veja bem, a Rede é mais complexa do que podemos imaginar. É o refino do tempo e do espaço como o conhecemos. Se em outros tempos o homem já se ocupou perquirindo as ilusões da continuidade do espaço e a relatividade do tempo, hoje podemos afirmar sem problemas que o espaço virtual é infinito, contínuo e ilimitado, um poder de armazenamento que transcende o que pensávamos ser possível. Trabalhei anos com o grupo de pesquisa do qual ele fazia parte, você se lembra. Por acidente, descobri a recordação. Quando tive contato com os resultados, não podia acreditar que aquilo era real, por isso a chamo de tecnologia Zenão”.

“Zenão?”.

“Exato, foi essa ideia que me passou há alguns anos. Sem ele, jamais teria chegado a desenvolver o serviço que agora lhe presto. Foi ideia dele tomar as bases de Zenão para continuar nossa pesquisa”.

Fernando vibrou com as memórias.

“Zenão foi um pensador nascido muitos anos antes de Cristo. Suas teorias procuravam brincar com a ideia de realidade que temos. Através da formulação de paradoxos ele demonstrou, por exemplo, que o movimento não existe”.

“Como isso é possível?”, a ideia me parecia sem sentido.

“Encontradas quatro bilhões, vinte e três milhões, cento e quarenta e sete mil referências, senhor, já computadas as referências criptografadas de voz e imagem, as citações cruzadas e o arquivo confidencial e desprezadas as informações dúbias e irrelevantes para a recordação. Preparando catalogação preliminar”.

Ele meneou impaciente a cabeça, de cima para baixo.

“Sim, sim, prossiga, Sonja”, e então para mim: “Não perca seu tempo, Amália. São ideias loucas. Em seu paradoxo da flecha, por exemplo, ele dizia que a flecha, quando lançada, ocupa um lugar igual às suas próprias dimensões. A cada momento em que ela avança, preenche um lugar no espaço próprio de suas dimensões. Assim, ela sempre está em repouso e nunca em movimento”.

E prosseguiu didático:

“Outro paradoxo foi o de Aquiles e o da tartaruga. Ele propôs uma corrida hipotética entre os dois, partindo da ideia de que a tartaruga teria uma vantagem na largada. Afirmou que Aquiles jamais alcançaria a tartaruga, pois a cada deslocamento de Aquiles, a tartaruga teria se deslocado em distância equivalente a de sua vantagem inicial”.

“Isso tudo me parece bobagem, Fernand”.

“E é. Mas ocupou a cabeça dos filósofos por milênios e só ganhou algum alento durante a Modernidade e depois com a Teoria da Relatividade e depois com a Física Quântica. O importante é que a ideia de tempo e movimento irreais me fez encontrar respostas que não esperava no ciberespaço”.

Sentia-me feliz por ter dispensado conversas sobre trabalho no relacionamento.

“Escaneamento e catalogação completos, senhor”, alertou Sonja.

Caminharam juntos até a sala, acompanhados pelo meu olhar, a mão dele guiando as costas dela.

“Veja Sonja”, disse Fernand, indicando à robô a fotografia que ele tanto prezava. “Este foi meu grande amigo…”.

Ela segurou o porta-retrato nas mãos. Analisou-a friamente. Os olhos emitindo uma radiação opaca. E depois sorriu.

“Você era mais jovem. Parecem felizes”.

Então ele se virou para mim:

“Querida, Amália. Os resultados demoram algum tempo para serem processados e refinados, dias talvez. O passo seguinte, infelizmente, não posso revelar a você. Eles a matariam pelo segredo” – e piscou.

Alcancei-o. Ele me devolveu o porta-retrato e nossas mãos se tocaram. E assim ficamos, até que um de nós se lembrou de separá-las.

Vi-os saindo pela porta, a imagem do homem se confundindo de novo com a do menino.

  • ··

Caminhava pelo comércio local quando senti uma presença me observando do outro lado da rua. Era Fernand.

Com a mesma mão que segurava um cigarro ele fez sinal para que eu fosse até ele. Entramos em um café. Sem rodeios ele principiou:

“Não consigo ir adiante com isso, você precisa desistir, Amália. Pensei muito a respeito. Devolvo seu pagamento e esqueçamos isso”.

“Não entendo, Fernand, por que tenta me demover?”.

“Isso tudo. Envolve riscos, Amália. Eu penso que você tem uma chance de seguir em frente. Você tem a chance de esquecer. É o que desejo a você”.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando compreender a incongruência de meu amigo.

“Eu não quero esquecer, Fernand!” .

“Você precisa”, redarguiu, incapaz de sustentar seus olhos nos meus.

“Fernand. Você… tem ideia de como sinto falta daquele homem? De sua pele? De seu cheiro? Ele foi tirado de mim sem qualquer razão para que isso acontecesse. Não era para ter acontecido. E agora eu posso tê-lo de volta, nem que seja dessa forma. Nem que seja quase real”, revidei.

Ele parecia frustrado e, após alguns instantes, tirou um envelope de seu casaco.

“Isso é para você”.

Ele me entregou o envelope.

“E saiba, é mais real do que imagina”.

Tentou disfarçar o tremor de sua mão, sem sucesso. Olhava o relógio repetidamente.

“Vamos logo, abra”.

Dentro havia uma fotografia.

“Eu não conhecia esta, Fernand, ela… quando?”.

“Coisa dele. Ele tirou e nunca lhe mostrou. Entregou-me tão logo pôde revelar. Disse que era um presente. As pessoas que ele mais amava. Ele fez isso por você. Foi a sutileza dele, sempre ela. Um sinal claro de ‘caia fora!’, com toda a polidez para que ainda fôssemos amigos”.

Talvez ele tivesse ido ao banheiro naquele dia, talvez comprar sorvetes, talvez tentasse tirar uma fotografia de uma paisagem qualquer longe de nós. Não me recordo. Quando voltou, encontrou Fernand e eu sob um pôr-do-sol, olhando um para o outro. Rindo. E eternizou isso.

Sentia-me confusa.

“O que pretende me dizer com isso?”.

Eu já sabia a resposta. Não era novidade para mim ou para ele o que quase aconteceu. O que poderia ter acontecido. O que deixou de acontecer por uma infinidade de escolhas e ações que culminaram com o presente.

Ele entrelaçou seus dedos aos meus. A pele ridícula ruborizando, com toda a certeza. Uma lágrima já teimando em escorrer. Ele me sorriu tranquilizador, apertando minha mão. Uma pressão tão leve. Como ele fizera tantos anos atrás. Firme e terno. Não posso negar que senti alívio, uma espécie de prelúdio de libertação, uma expectativa.

Ele ainda me sorria quando senti a vibração. Uma ligação.

Nossos dedos se descolaram e tanto não havia mais sorriso no rosto dele quanto minha lágrima já havia se perdido pela gravidade.

Do outro lado da linha, uma respiração pesada, como que despertada de um sono esquecido.

Não me lembro de ter dito alô? ou perguntado quem era, mas a respiração se acalmou e uma pequena risada se seguiu, então soube quem era.

“Meu amor…”, começou, escolhendo as palavras, igual a um filhote escolhendo bem os passos ao aprender a caminhar. “Meu amor… que saudade…”.

Era meu marido.

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